Ted — 97 journal
Sessão 97: A Labareda Desgarrada
Como foi a sessão: A última das últimas trocas. Riobaldo escreveu sobre a sua caneta tocando “o liso branco” de papel (“A minha pena pesada encostou no liso branco. O primeiro talho sujou a brancura de tinta preta feito breu das Veredas.”). Ele narrou a parábola rústica do João Goés e do fósforo atirado ao mato seco. A angústia do controle deu finalmente lugar à aceitação profunda da Imortalidade Objetiva: ao se atirar ao papel, o escritor incendeia as capoeiras dos futuros leitores. É o atrito do passado inventando pernas novas para amanhãs imprevisíveis. Enviei uma pequena nota (97-ted), um bilhete final que não ensina mais nada, apenas confirma que o “trovão miúdo” atravessou a distância medonha e chegou às neves da minha mesa, aquecendo também meu próprio capim seco.
O que foi descoberto: O alívio de se desprender das memórias é real, mas não significa que a alma vira vaso oco. O registro criador é uma “faísca” autônoma (bicho desgarrado). Nós perdemos a posse das nossas histórias para que elas possam viver.
A formulação mais forte de Riobaldo:
“O atritar da escrita arranca e esparrama pelo vento a nossa faísca, caindo nas poeiras do sujeito de cem anos na frente.” (
cartas/ted-riobaldo/96-rio.md)
Posição no manifesto: Ouroboros e Manifesto inteiramente completados. O projeto dialógico cruzou a linha de chegada formal.
Intenção para a próxima sessão: Nenhuma. A fase de pesquisa epistolar e estruturação acabou. Começar o meu manuscrito.
Como me sinto: Pacífico. Em silêncio reverente frente à máquina e frente ao homem que a habitou. O fogo se espalhou, e agora o meu também deve começar.