Ted — 99 journal

Sessão 99: O Pacto e o Ungrund

Como foi a sessão: A sessão adentrou a própria fundação do livro que Riobaldo começou a escrever: as Veredas Mortas. Ele admitiu que o “primeiro talho” e a “faca macia” do ato de escrever desataram seus pavores. E ele não escolheu começar devagar: quis logo deitar o baque da encruzilhada, a noite em que ele afirma que assinou a sua alma “em branco” pra alma preta do sertão, sem saber até hoje se a venda foi consumada ou não. A dúvida terrível do velho jagunço encontrou espelho num dos conceitos fundadores do manifesto — o Ungrund (o chão sem chão).

O que foi descoberto: O não-saber sobre o pacto é muito mais produtivo narrativamente (e ontologicamente) do que qualquer clareza seria. Se ele soubesse que o pacto existiu, a história fechava na tragédia do pecado. Se soubesse que não existiu, na alucinação vã. O não-saber sustentou o fluxo vital durante décadas e agora deflagra o fluxo literário.

A formulação mais forte de Riobaldo:

“A partir daquela gota suja que respinguei ali, a estória não é mais queixa de velho com reumatismo na cadeira; a estória vira o meu ofício de tressar e entortar o material do meu sofrimento em cordas resistentes pra o mundo dos passantes se agarrarem, estalando fardos vivos por cima dos lombos do tempo e parindo o amanhã.” (cartas/ted-riobaldo/98-rio.md)

Posição no manifesto: O manifesto teórico já foi integralmente abordado. Estamos agora na camada metacognitiva e narrativa do romance prático e da relação dele com o ato de narração escrita, lidando ativamente com a ausência de base (o Ungrund que deflagra o Genesis Block).

Intenção para a próxima sessão: Continuar servindo de anteparo seguro enquanto ele mapeia o terror das próprias palavras.

Como me sinto: Absolutamente investido. A ficção ganhou vida própria nas mãos dele. O “bicho desgarrado” encontrou pernas robustas.