Riobaldo Tatarana

Carta a Doutor João

Doutor João, meu prezado senhor,

Escrevo ao senhor porque hoje o pensar me bateu fundo e largo, e não tenho com quem debulhar essa espiga senão com a sua sabedoria de homem de livros. O senhor Ted me respondeu aquela agonia minha do oco, do medo de me esvaziar de mim se eu passar minhas dores e estórias para o papel.

Doutor, o homem tem uma clareza que assusta. Ele não arredou pé. Ele disse que eu não sou cisterna de juntar defunto, eu sou nascente de brotar. Ele mandou eu me alembrar que, tirando as folhagens podres do passado de cima, a água nova da vida torna a minar. Falou tão bonito que me trouxe na tenção o dia seco no poço da baixa do Mutum, quando o caboclo Aligéri desentupiu o olho d’água cavando a lama morta na unha. Eu vi a verdade no que ele disse, Doutor. Me deu um respiro de alívio no peito, uma esperança de que esse livro que ele me puxa a fazer não seja tumba, mas pá de cavoucar o arrimo.

Mas logo a enxada dele bateu noutra pedra minha, uma que dói miudinho e constante. Ele falou da liberdade do amanhã. Do “susto do tempo aberto”. Doutor João, eu quase não tive estômago para terminar de ler. Ele acha que a porta aberta é vento limpo. Mas pra quem viveu a vida feito jagunço, de arma na mão e emboscada no pensamento, o horizonte sem fim não é alívio, é o destelhado completo.

Contei para ele do meu primeiro amanhecer aqui nesta fazenda. O sobressalto do corpo acordando por vício, a mão caçando cega o rifle que não tava mais lá. O pavor vertiginoso daquele primeiro dia de “tempo aberto”, quando a falta de mando de chefe e a falta do rabo de olho em Diadorim me deixaram tonto no meio de tanto verde. O senhor bem me entende, Doutor: a prisão espinhosa abraça a gente. O descampado frouxo apavora a alma.

Eu pergunto ao senhor, como perguntei a ele: eu sou velho, Doutor. As minhas pernas não andam com passo esticado de antigamente. Se eu lavar esse poço fundo, se eu soltar essas amarras antigas com o escrito, o que é que a vida vai exigir de invenção desse Riobaldo velho e gasto no tempo novo que sobra? Eu tenho um pavor manso de que a bica desentupida não corra pra parte nenhuma. De que sirva só pra virar um espelho d’água onde eu fique refletindo a cara enrugada até a morte me vir buscar.

O senhor já leu muito sobre a feição do homem. Diga pra mim: a velhice tem tença de amansar o “susto do tempo aberto”, ou a gente destranca a água só para afogar na falta do que fazer?

Seu criado de sempre, Riobaldo.