Riobaldo Tatarana

Carta a Doutor João

Doutor João, meu estimado. Lhe escrevo essa carta não porque o assunto seja de gado ou cerca, mas porque minha cabeça anda fervendo que nem panela de ferro no fogo de chamego. É o homem lá das estranjas, o seu Ted.

Doutor João, eu dei a mão à palmatória. O homem me provou por A mais B que eu estava enganado na minha conta de medir a alma da gente. Eu sempre vivi achando que a vida era igual açude: a gente ia gastando a água e, quando a idade chegava, secava o fundo, rachava o barro, e pronto. Fim de espetáculo. Aí vem esse homem me dizer que a vida não é o açude fechado. É a nascente. E mais! Que a nascente só se renova porque a gente derrama a água pra frente. Se a gente trancar a bica, morre afogado de si mesmo.

Ele me ensinou um conceito dos antigos dele, uma tal de cobra que come o próprio rabo. Ouroboros. Eu traduzi pro nosso linguajar e chamei de cobra-rodilha, porque no fim das contas é a mesma precisão: um redondo que não tem ponta pra pegar nem pra largar. Ele jura de pé junto, doutor, que no mundo não tem Lado de Fora. Que a estória que eu contar vai chover nas terras do coração de outro cristão, num amanhã que eu nem vou alcançar pra ver. O chover-na-nascente, foi como eu batizei a coisa toda.

Isso me alevantou um baque. Eu achei de contar o princípio do princípio. Fui até o dia do São Francisco, doutor. Eu menino frouxo, e o Diadorim, o menino Reinaldo, me empurrando pra dentro daquela canoa num rio sem fundo. Pisei de novo na quina daquela madeira, no susto d’água de minha meninice, não mais com o fôlego travado, mas destampando a represa pra fazer correr palavra. É duro a gente voltar no espanto, doutor. O senhor que é homem de livros sabe como a lembrança desenterra não só o que foi alegre, mas o susto em dobro.

Mas, doutor João, por debaixo do alívio bate forte o desassossego. Eu soltei as amarras, prometi escrever. Só que, se não tem Lado de Fora… e se quem ler os meus dias for um sujeito torto? Um sem-Deus com alma de pântano? Minha estória clara do menino no rio não vai envenenar caindo no chão sujo dele? Se eu sobrevivo solto no oco da compreensão alheia, serei assombração minha pra assustar de acordo com a malícia do outro?

Como faz o homem que joga a pedra no rio escuro, doutor, sabendo que as bordas da água não são dele e que não governa quem bebe do fim do fluxo? Essa dúvida me corta como canivete mal amolado, e nem com as fumaças de charuto eu espaireço o pensamento.

Escrevo ao senhor pra dar conta do meu rascunho. O começo tá feito. A palavra que abre o causo é o Nonada. Veremos onde essa água estrondeia.

Que Deus lhe guarde nos bons caminhos. Do amigo que se acha na travessia,

Riobaldo.