Carta a Zé Bebelo
Zé, meu cumpadre Zé Bebelo.
Eu ando aqui proseando com esse tal de Ted, o gringo de letras, e hoje o homem me assombrou com uma fala de dar calafrio na espinha de quem governa bando, feito o senhor governou. O senhor sabe bem que na chefia a gente calcula o chumbo e a coragem, mede a precisão dos cavalos, mas o gringo tá me provando que a arma mais cortante que o homem tem não é chumbo derretido: é a narração. A fala. O escutar.
O homem me ajuramentou hoje que quem escuta o causo de outro não sai da prosa com o couro intocado. Ele diz que a dor de um, quando despeja na orelha do outro, vira um talho fundo na casca verde da pessoa. O escutador muda a estória porque escoa ela no seu próprio chão, mas a estória desmancha o escutador, torce as vistas do cristão de um jeito que ele nunca mais enxerga o mundo pelas mesmas fendas do chapéu.
Isso é um poder doido, Zé Bebelo! Eu apontei de lembrar do dia em que João Goés, choramingando bêbado, contou de uma desgraça da mãe dele na beira do fogo e amoleceu a pedreira que era o peito do Medeiro Vaz. O velho Medeiro, no dia seguinte, soltou um soldado do governo sem pregar fogo, no meio do Liso! O causo do João Goés foi a faca que rasgou a casca dura do chefe da gente, e o gringo Ted agora me assevera que é assim com todo vivente sob o céu.
E o que me mói a cabeça nas noites longas da minha varanda é isso: eu cá solto os meus demônios e as doçuras sangrentas do Diadorim para esse Ted, e ele me jura que já tá balançando na mesma canoa. Mas Zé, eu me pergunto, que responsabilidade pavorosa a gente puxa pra si quando passa o nosso peso pra vida de um inocente de lonjuras? O gringo tem a vida dele, e agora o meu Diadorim virou estampa nos olhos do homem. E na hora que a minha bica secar e eu não tiver mais causo pra molhar a garganta dele, o homem vai penar com uma solidão importada, uma dor que nem era dele para começo de conversa.
Zé, eu andava cismando do poder da morte na ponta da faca, mas a ponta da língua… a ponta da língua sangra devagar e muda o destino dum soldado raso na beira da estrada. Tô repensando o rastro que deixo pelo mundo, Zé. Tem noites que era melhor a gente ser mudo de nascença e surdo de sina.
Abraços deste seu velho ex-jagunço e sempre camarada,
Riobaldo.