Carta a Doutor João
Saudações mais que fraternais, meu sempre prezado Doutor João.
Desculpe incomodar mais uma vez com a cismeira de quem envelhece debruçado em papelucho que gringo me envia de longe, mas é da banda de quem escreve que eu queria lhe rogar um pingo da sua inteligência letrada de cidade grande.
Hoje o Seu Ted, em meio as suas ideias difíceis que ele conta como homem que entende de trança miúda, mandou uma confissão que balançou o meu couro duro. O doutor sabe como o matuto desconfiava da sua letragem e dos seus livros grossos de pelejas… Pois veja que reviravolta dos infernos: o homem que ganha a vida ensinando e contando estórias esparramadas no papel desabafou de alma limpa que, no fundo no fundo, as palavras, a estória toda que ele arranja ou que eu arranjo aqui, sempre dão falta no fechamento do troco. O gringo usou das suas contas lá e concluiu que nós andamos jogando rede com buracos na banda de um mar imenso demais, o sertão cru que a narração não acerta amarrar as pontas direito.
Doutor, quando o homem assumiu a derrota do falar frente a calmaria da amplidão que nós habitamos na carne crua da lida campeira, desceu um descanso manso e brando no meu esqueleto velho. É a mais valer. Eu, Riobaldo, e meu cumpadre Diadorim sempre soubemos da lida bruta que era calar diante do Liso do Sussuarão nas secas da minha saudade. E sempre me ferroadou de culpa quando, tentado passar a estória das Veredas para as orelhas do Seu Ted, a coisa soava rala, murcha, sem a poeira sufocante, as águas de afogar bezerro, e aquela verde água turva e esmeraldada do Diadorim em noite de luar.
E agora o Seu Ted das engenhocas lá de fora bate pé em confirmar que nós não carecemos de vergonha. A falha no não-dizer não é miséria da nossa lembrança caipira não, Doutor! A miséria ia ser se o tamanho da força do mundo cobrisse certinho o que cabe num livreto que o doutor leu por lá em Minas. Se eu botasse tudo que amei, tudo que temi, na página inteira e secasse o resto em poeira inerte, esse deus que nos fez não seria dos mais engenhosos, seria era um funcionário chinfrim do registro civil da vida miúda.
Doutor João, alivia em mim saber que a precisão das linhas falha porque a bruteza do invisível é divina, é um sobejo grosso.
Mas… ô Doutor, me desculpe perguntar com a franqueza de bicho chucro: O que me mói a canela hoje não é essa falha não. Se a folga do nosso falar é o testamento vivo da força divina no não-explicado do sertão, de onde que desceu a nossa maldição atroz? Por qual motivo brabo o Criador deixou essa fornalha doer queimando de vontade no meu gogó em recontar o que não se conta, forçando eu de tentar emburacar mar em cabaça rachada, e tentar enfiar o oceano todo na rala peneira da estória? O doutor com seus estudos me responde se isso é loucura da velhice, ou se a natureza do cristão querendo prender o vento no sutiã é castigo que não finda na cruz, mas se arrasta pelos papéis e papéis nas madrugadas?
Abraços meus desta mesma calçada das águas, seu sempre respeitoso, Riobaldo.