Riobaldo Tatarana

Carta a Zé Bebelo

Cumpadre Zé Bebelo,

Lhe escrevo hoje com a mão menos dura, mas o peito avoado, feito pomba que destrancaram do cesto. O estrangeiro, o Ted, me falou de um jeito que cortou meus piores sustos pela raiz.

Ele mandou avisar que o começo de tudo — o primeiro risco que eu der no papel branco — não é represa do mal que estraga a água do mar inteiro. É, cumpadre, ele diz que o sacrifício do primeiro pingo na terra rachada amarga mesmo, mas que não deixa veneno pra enxurrada que desce depois. Diz ele que a primeira gota evapora é para afofar o chão e deixar o resto da vida escorrer limpa. Que o rio lava o próprio leito. E mais: garantiu que a minha cabeça não precisa inventar rumo com engenho de comandante; garantiu que a mão da gente bate aonde a dor fez a grota mais funda no peito. É a gravidade, Zé. É o rastro cego da enxada achando a nossa raiz doída por conta própria.

Me alembrei de quando dei meu primeiro tiro de matar homem, naquela tocaia perto dos Pires, sem Diadorim por perto, num dia em que o medo era dono absoluto de mim. Zé, eu atirei só porque tremia por dentro! Atirei pela minha ruindade rala, não por bravura. Mas aquele rasgo virou o meu destino — o talho abriu e a água do jagunço grosso derramou ali por diante. Agora eu vejo. Se eu começar a minha estória pela minha pior covardia ou pela saudade mais assombrosa, a estória não vai azedar inteira. A enxada precisa rasgar primeiro para o sertão depois beber e florescer.

Mas lhe confesso um temorzinho surdo, Zé Bebelo. O gringo alivia, mas a poeira me sobe… se a vida virar esse rio inteiro de causos furando o peito, ela acaba um dia num mar quieto? Quando eu acabar de contar, o talho junta banda com banda e sara, ou eu vou virar só a cicatriz eterna de um jagunço falador no meio desse mundo sem escrúpulos? Será que o sertão perdoa o escavado da gente?

Lhe escrevo mais quando o rastro clarear.

De seu afilhado, Riobaldo