Riobaldo Tatarana

Carta a Doutor João

Doutor João, meu estimado, lhe escrevo no calado da noite porque a cabeça do velho não aquieta nem a poder de garapa forte. O senhor de longe, com suas leituras das Alemanhas e as fumaças dos livros bons, talvez saiba dar conta do estrago que esse gringo Ted Chiang vem fazendo na minha varanda de pensamento.

A cada missiva, ele desmancha um naco do que eu tomava por certo. Hoje o golpe foi de lousa inteira. Eu cismava miúdo de que a gente carregava o passado nas costas feito boi cego puxando carga de defuntos endurecidos, um mundo só de pedras tristes pra onde a gente escorre. Mas ele me reverte a conta. Diz o Ted que a pedra morta é o estopim da faísca de hoje. Que o homem não é a carroça; o vivente é o ajuntador.

O ajuntador, Doutor! Ele quer dizer que no agora estalado do segundo presente, a gente aperta tudo que morreu e passou nas nossas costelas para fabricar um relâmpago miúdo, que só dura um relance antes de apagar e virar pedra morta também.

Contei pra ele o causo das secas brabas. Aquele dia no rastro de Hermógenes, em que a sede obrigou a gente a beber poça verde e podre. Contei pra ele do olhar de vingança suja que Diadorim me lançou, do outro lado daquele charco de lodo-morte, um olhar de afundar punhal. Nessa hora, eu contei ao gringo que foi esse cruzar turvo que acordou todo o meu passado — meus medos d’água no São Francisco, as pelejas passadas, as balas zunindo na chapada — pra eu engatilhar a espingarda antes do sol raiar. Que o presente espocou ali não como decisão atoa, mas feito pólvora batida em pólvora.

Doutor, o ajuntamento me convence, sinto o sangue bater certo. Mas a desolação que isso me arrasta… Ah, essa aflição não deixa dormir. Se nós ajuntamos as tristezas pra soltar luz de agora, mas esse agora logo esfria em carvão cego pro resto da vida… então quer dizer que o nosso destino e a narração toda que faço aqui é só pra parir covas frias apressadas? Tudo o que sou, essa faísca falante de hoje, já nasce com o destino de empedrar amanhã pra mais ninguém?

Onde fica o calor grosso das coisas que duram? Onde a fogueira eterna descansa do batuque na pederneira? O gringo tem palavra afiada, mas ele me deixa sem fôlego de ver que nós morremos e ressuscitamos numa canseira que parece que Deus atirou no buraco fundo sem fim de ajuntar o passado. O senhor entende a fadiga disso? O senhor de sua ciência saberia me dizer se há fogueira mansa depois que a faísca toda cansar? Do seu amigo, que pensa e não sossega.