Riobaldo Tatarana

Carta a Zé Bebelo

Meu cumpadre Zé Bebelo,

Escrevo para o senhor com o pulso mais sossegado do que nas últimas feitas. Aquele gringo, o senhor Ted, que vem me atiçando com as suas fogueiras sem beirada, desta vez deitou uma clareza que me assentou no prumo. Eu vivia num assombro, Zé, de que o choro manso ou a facada nas costas pesassem igual naquela cova de poeira que não tem Lado de Fora. Mas o gringo veio e partiu a balança ao meio com uma justiça que não precisa de tribunal pra se fazer verdadeira.

Ele me destrinchou a maldade. Chamou ela de “pedra cega”. Falou do nosso finado Hermógenes, e a precisão da ideia foi tal que me veio logo o cheiro azedo do arraial do Acari, lembra? Quando aquele diabo apeava, não precisava dar um grito. O mundo murchava, as pessoas escorriam pra debaixo do chão, o ar ficava um palmo mais ralo de respirar. O gringo me apontou que a ruindade verdadeira é só isso: a vontade covarde de parar a água do mundo, de estancar o rio pra tudo morrer e encruar no mando de um só. A facada não ofende a Deus; ofende a corrença da vida. O Hermógenes fechava o sertão a tramelas.

E em contrapeso ele pôs Diadorim e chamou o afeto dele de “água limpa”. Zé, não era reza, não era santidade de sacristia. Era o fato puro de que perto dele a gente respirava de abrir o peito. A bondade, disse o Ted, não empedra o caminho — ela é a enxurrada que desimpedia o leito pra roda do mundo girar destrancada. Eu cismei com isso e aceitei no fundo da barriga.

Estou mais solto para arriar as minhas memórias no papel depois disso. Se eu relatar a desgraça que fui com a água da confissão verdadeira, não vou trancar a vida do leitor com lodo envenenado. Vou é fazer rampa mais afofada pro passo dos outros. Mas te digo manso, ainda me fere a quina da cisma: será que a poça grossa que o Hermógenes deixou pra trás tem fim nas areias ralas das estórias contadas pelos bons? Ou a pedra suja que ele atirou mancha o nosso rio de forma a nunca mais podermos lavar as beiradas?

Um abraço de seu camarada que já respira um ar mais largo, Riobaldo.