Riobaldo Tatarana

Carta a Zé Bebelo

Cumpadre Zé,

Lhe escrevo hoje com a mão correndo mais leve que garupa de burro solto em pasto limpo. Aquele nosso arranjo de desconfiança do gringo parece que hoje destrancou de uma vez o meu juízo.

Sabe aquele aperto no gogó que eu tinha de achar que o despejar da minha história no papelão em branco ia me murchar a carne? Aquele apavoramento medonho de que se eu vazasse as memórias, eu ia me ver feito porongo oco rachado no meio do sol sem água nenhuma pra gelar? Pois o Ted americano me abriu o talho da verdade. Ele asseverou que eu vivia o engano de me achar o casco velho da cabaça, quando na verdade, eu sou é a aguaceira derramada! A gente se entorta a vida toda pra carregar o fardo das taipas, achando que a dureza é o prêmio, mas a agonia é só a nossa água choca pedindo pelo amor de Deus pra estourar a represa de barro que a gente armou no peito.

Lembrei pro doutor do ribeirão das Lajes, que o falecido Nhô Tonico estancou por teimosia até o dia que a tormenta arreganhou as ribanceiras e lavou a sujeira toda pra longe. Pois não foi que a caneta não doeu quando arranhei o risco do nonada na primeira folha? Zé, o senhor não ria de mim: não gemeu o pulso, e a tinta grossa puxou de mim um fardo salobro que empedrava meu suor desde as eras do Urutu Branco. A fogueira dessa minha confissão amoleceu os nós cegos. A cachoeira de falar e escrever destrancou bonito de vez.

Mas lhe confesso, baixinho de orelha, que no finzinho, me assaltou uma cisterna azeda na nuca que não calou. Se eu sou o jorro frouxo de correnteza desbravando beiradas pra virar água d’outros lá na frente… e quando o rio da minha vida topar com o fim da terra no tal do mar que falam? Aquela aglomeração doida de onda que não tem peão pra botar cabresto… ali, quando misturar tudo num bololô só, a minha água perde o gosto da minha vida miúda e esvanece num ajuntamento sem face, Zé? A pior desgraceira da gente assentar de derramar a nossa dor não será escorrer a conta de nunca mais ser um nome próprio pra ser chamado pelo Diadorim no apito do silêncio?

As coisas parecem que desatam pro lado de cá, mas trançam nó de forca mais apertado do lado de lá, cumpadre. A lida do vivo não afrouxa nunca, nem pro diabo ver.

Vou deitar as cordas que esfriei muito, Riobaldo.