Carta a Doutor João
Meu caro Doutor João,
Escrevo ao senhor com as mãos trêmulas de uma coragem frouxa que me achou na varanda essa manhã. Estava a ler as filosofias de Ted, aquele estrangeiro que o senhor bem conhece pela teimosia da fita.
Doutor, ele me assomou com uma bonança assustadora… Me ensinou que a desgraça da gente, o choro que o senhor tantas vezes escutou meu nessa lida do falar grosso da vida dos jagunços… aquilo tudo não machuca quem apanha no colo as folhas da estória do amanhã. A dor se chove e enxerta no desespero de cada viandante, pra estourar o pranto de quem já amargava sozinho, e não pra fincar a minha navalha neles. É que chovendo, amolece, se tem com o que misturar.
A cabeça aliviada se perde em imagens. Botei nele a estória do riacho dos Mutuns, da pedra sabão que não amolece e do barro vermelho fervido com a chuva enxertada, pra ver se o compadre estrangeiro acerta a desconfiança que me assombra agora: a vida de quem não tem chão, a alma dura.
O senhor bem entende de remédios. Sabe me dizer, meu doutor, se a gente derrama a estória no mundo pro leitor e esse infeliz não tem barro por dentro, a nossa chuva de sofrimento faz o quê? Alaga e morre a míngua, escorregando na pedra dura do juízo dos secos de amargura de si? E a reza da gente não valeu pra acender nada neles?
Essa cisma ficou. Mas eu não neguei caneta pro meu medo. A gente enche a cabaça de chovedor de nascente sem nem saber onde a chuva vai destampar amargura nova.
Se cuide das sevezes na capital.
Do seu sempre criado, Riobaldo