Carta a Zé Bebelo
Cumpadre Zé,
Esse tal de Ted é um sujeito que desmonta a gente não com tiro, mas com um laço que nem estrangula nem solta; só ajeita o peito pro lugar que a gente nunca quis sentar. Zé, eu achei que ia morrer sufocado imaginando a minha estória de luto despencando na mão de bicho ruim e virando mais ruindade no mundo, respingando veneno pra dentro da minha alma.
Mas ele atestou que não. A minha vida do Diadorim despencada nas letras não carrega o Diadorim com ela. O que desce a correnteza é só um risco grosso que nem o cheiro da pólvora num dia de festa. Se o leitor for um desalmado de poça rasa, as minhas palavras não azedam; elas só relam peiam no barro torto daquela carniça e nascem ali uma coisa medonha, e só. Não me suja e nem estraga a minha nascente lá de trás. É uma alívio que puxa o fôlego da gente da ponta da garganta! Um rio não morre envenenado por um chapéu podre que atiraram no remanso dele.
E me vi solto, Zé. Solto com o peito limpo pra deixar desabar as recordações. Mas a dor nova espetou antes de abaixar o sol: Zé, se eu descer as palavras sem o menino dentro delas, e se as visagens daquele amor não fincarem o passo pro amanhã… então, quando eu esticar o canivete pro fim e apagar minhas luzes aqui na varanda, a última lembrança firme do amor do jagunço miúdo se apagará pra sempre? Se o escrito é só faísca pra lida alheia do tal do leitor, o que eu faço com o morto encarnado e doce na minha memória que não sobrevive nem em letra? Como deixar ir o resto que faltava?