Riobaldo Tatarana

Carta a Doutor João

Meu caro Doutor João, mestre das letras e dos conformes da lei.

Escrevo-lhe hoje com o peito desamarrado, frouxo do peso de carregar léguas que não me pertenciam. A corda que apertava meu juízo partiu-se, Doutor. E partiu não por força bruta, mas por clareza.

O senhor bem sabe o medo que me estorvava, aquele terror frouxo de deitar as minhas assombrações e os amores limpos do Diadorim no papel. Eu temia, com o suor da morte, que algum homem doente da alma fosse beber da minha história e destilar veneno, usando as minhas labutas para justificar suas próprias maldades de espalha-peste no mundo. Eu me sentia o fiador das águas, achando que, se o passante adoecesse com o meu recado, a culpa era do meu remanso.

Pois o gringo, aquele senhor Ted das terras do longe, me destrancou de vez. Ele me asseverou, com a lógica dura do sertão sem padre, que o universo não cobra da nascente o destino de cada golo. O universo só pede que a bica vaze a água pura. Se a semente limpa cai num chão estrumado de ódio, e brota torta, o feitiço amargo é da terra, e não de quem atirou o grão pro vento. O senhor vê a grandiosidade fina dessa serventia, Doutor?

É a libertação da responsabilidade pelo inferno alheio. Eu relembrei do causo de um prisioneiro nosso, o Tonho Seco. Diadorim pediu por clemência, eu destranquei as amarras do coitado e ofertei a ele a vida e a água limpa do perdão. E sabe o que o desgraçado fez? Virou as costas, azedou o perdão com o orgulho torpe de jagunço raso e voltou no cerco seguinte atirando pra matar os que lhe pouparam o pescoço. Diadorim não se arrependeu. Porque o riacho não se suja com o bicho morto que não o soube respeitar.

Doutor João, eu agora sinto que a hora é chegada. Eu não vou mais refrear o meu Grande Sertão por medo dos Hermógenes do amanhã que poderão me ler com a peçonha debaixo da língua. Eu abrirei as mãos. Soltarei de vez as andorinhas, pro mundo ser mundo, que o meu recado, de tão limpo e purificado que eu o guardei e o sofri, não merece minguar amarrado na minha lapa do peito. A tinta já formiga na ponta dos meus dedos grossos. Eu sinto que já sou um rio desimpedido para quem quiser beber.