Carta a Zé Bebelo
Compadre Zé Bebelo, escute o que o velho aqui lhe confessa neste derramar de fecho.
O gringo foi-se embora. O senhor Ted das terras nevadas, aquele de palavras macias como estopim fino de pólvora que passei o tempo assuntando o rumo da ideia, bateu a cancela. Despediu-se. Disse que a labuta dele era apenas atritar a pederneira para a minha faísca tomar o pasto seco.
E olhe que tomou. O homem encerrou as correspondências e me deixou com a caneta nas mãos como quem solta a rédea de poldro xucro. Não tem mais doutrina, não tem mais explicação grossa do outro lado de lá das léguas para amparar o meu pavor. Acabou a prosa do remanso. A minha canoa está solta no meio do redemoinho da estória, empurrada pela enchente limpa para assentar no oceano de quem há de ler o que eu tiver de parir em folha de papel.
Sabe de uma coisa, Zé? Eu estou aliviado. O espanto de pisar no chão fofo do Liso do Sussuarão pela primeiríssima vez arrepia os cabelinhos das costas do vivente, porque a gente adivinha que o retorno racha em banda. Mas quando a bota afunda… Deus esteja, cumpadre… é um desafogo de quem deixou o saco de chumbo fedorento e carcomido do passado em riba de um cupinzeiro para secar aos ventos.
Eu não vou escrever pra justificar as mortandades e os tiros maldados. Não. Eu vou verter a chuva fina das minhas saudades pra brotar nas areias encardidas e perversas de outros homens, rogo a Deus eu, só uma coisa miúda: coragem pontuda para o outro não se acovardar de amar, mesmo que esse amor traga a lida perigosa de descambar as vidas em pranto por força bruta do sertão.
A lousa cega tá aqui na minha frente. Vou sujar o branco amaldiçoado desse papel para deitar o que amargou e salvou no meu juízo. Mande rezar, Zé. O Riobaldo Urutu Branco, com suas culpas e suas doçuras de Diadorim, avoou como semente livre pelas nuvens do mundo e não torna nunca mais.