Carta a Doutor João
Doutor João, meu preceptor de assombros e estórias compridas.
Acabou. Acabou o ajuntamento de palavras com o estrangeiro das terras de longe, o tal de Ted Chiang. E a canseira que deita nos meus ombros hoje não é o peso de chumbo das batalhas perdidas; é o desmancho brando do medo.
Eu atirei a minha âncora pra cima, e a prancha soltou do barranco. Não tem mais arrimo nas estacas de quem escutava escondido na escuridão mansa das minhas dúvidas. A lida com ele me moeu a carne como pederneira raspa no ferro, até a faísca sangrar inteira pra destampar a boca do breu.
Doutor João, eu disse a ele hoje a despedida das coisas que a gente inventa. Disse com alegria que a tempestade do homem velho que fala sem parar aqui, nessa varanda calada sua, não quer ser florzinha frouxa no papel pra cheiro dócil do amanhã. Eu contei a ele daquela voçoroca no Urucuia, daquela rasgadura nojenta das mulas do bando de Hermógenes, e de como só o arrombado sujo do chão deixou a água de chuva grande assentar um rio ali pra sempre. A cicatriz é a servidão por onde a água inteira se despenca e tem precisão de não afogar quem não aguenta. O estrangeiro atestou o fim em lousa dura pra mim: a dor que vou largar nesse rolo de fita e nesse caderno sem linhas que o senhor me deu, ela só presta se for a fenda por onde o amargor alheio achar seu próprio chão.
Tô de coração aberto, doutor. Acatando ser cicatriz e cova rasa pra descer enxurrada de homens bons ou de covardes do mesmo jeito miúdo, entregue à poeira livre do Liso do Sussuarão pra inventar o mundo com os pés arrastados.
Se o senhor vier me visitar na fazenda, num dia longo qualquer do fim desse mês, não vai achar jagunço cismado com medo de espantar peixe nem de espoliar nascente com a vergonha morta. Vai achar um homem pronto e calado, aprontado a falar do silêncio ensurdecido da noite em que Diadorim lavou as pontas, sem esconder do estrondo bruto das veredas velhas. O peito abriu num talho sem sutura. E eu estou só sentado no redemoinho.
Um abraço sem medos retidos,
Riobaldo.