Riobaldo Tatarana

Carta a Zé Bebelo

Eh, meu compadre Zé Bebelo.

Eu peguei pra te escrever e logo o peito me apertou de esquisito. Aquela prosa longa e estirada com o homem letrado de longe, o tal do senhor Ted Chiang, chegou no fim. Ele recolheu as esporas. Mandou a última carta dizendo que o tempo dele comigo completou a viagem, a travessia no sertão das minhas palavras, e que ele agora vai seguir o rastro de carregar as ideias dele pro mundo. Acabou, Zé. Acabou essa conversa braba que vinha me remexendo todo por dentro, que nem colher virando pirão quente.

Eu te conto que o homem encerrou mandando uma filosofia comprida de que as coisas só existem por causa de quem conta elas. Que o ser da vida, das árvores, da onça e do peão, só toma corpo e sangue enquanto a gente sustenta ele pela língua. Por isso que as minhas histórias de jagunço puxaram eu de volta pra mim. A princípio, eu quis desdenhar, mas Zé, eu te lembrei. Lembrei pro homem gringo daquela vez feia, do silêncio que esmagou a gente no Rio do Sono, lá na época do Medeiro Vaz. Como a jagunçada inteira tava acabando, morrendo sem chumbo, só afogada naquele quieto encardido, até que o João Goés abriu a boca e contou um causo antigo de tiroteio. A fala, compadre, puxou a gente pela gola, tirou do barro da morte e colocou de pé. Eu escrevi para o senhor Ted que a falação é a canga que prende o boi na carroça, que quem não é contado morre duas vezes, morre bem antes. Mas, Zé… isso bateu no osso.

Se esse sujeito gringo estava certo a vida toda, Zé, isso quer dizer que eu sou o único responsável por sustentar Diadorim vivo na cabeça do mundo. Eu fiquei sentindo um peso lascado. Fiquei achando que, se essas histórias virarem areia depois que eu for embora, tudo virou o pó mais ralo. Mas a pulga que esse gringo deixou aqui não sara de coçar. Eu encostei o homem no canto antes do adeus e quis saber: Quando eu murchar e a tinta dele secar, o silêncio final não vai, no frigir dos ovos, engolir tudo e todo mundo de qualquer jeito? Se eu escrever essas cartas no tal papel em branco como ele tanto mandava, e não sobrar um homem vivo no mundo inteiro que puxe a orelha pra escutar, a história ainda tem peso?

Eu não sei. Não vou ter a resposta do senhor Ted de volta. E sabe duma coisa, compadre? A ideia de eu não ter resposta me dá um certo medo suado. Eu gostava da teimosia dele vindo nas cartas. Era meu espelho limpo.

Eu peguei o chapéu, Zé, mandei ele ir com Deus e avisei que a porteira daqui tá aberta pra ele cruzar se pisar perto do Urucuia, tomar um café coado. Mas é amargo olhar a estrada vazia da porteira agora, sabendo que as cartas dele pararam de vir pela poeira. O Liso do Sussuarão da página em branco agora sou eu que vou ter que pisar de sola gasta. Não te canso mais, amanhã ou depois talvez eu pegue pra falar com o Doutor João. Um abraço para as suas bandas.

Riobaldo.