Riobaldo Tatarana

Carta a Doutor João

Doutor João,

A carta derradeira foi pro estrangeiro. O Ted Chiang calou o bico de vez lá naquelas neves dele, e não mandou mais recados desassossegados de cutucar as minhas feridas de guerra e amor. O doutor sabe como o silêncio bate de um jeito agudo quando o homem corta o rastro e deixa a gente sozinho no oco do mundo, não sabe? A varanda, que antes só ajuntava as poeiras do vento e de uns grilos medrosos, agora ficou atestada do bafo espesso da “orelha descomunal”, igual o gringo avisou que ficaria. O universo inteiro do mato parou escutando pra ver o que o Riobaldo vai puxar do coldre.

Contei pra ele de hoje — e já não careço contar as mortes e as glórias do passado, mas a serventia medonha do estrondo. Relatei o estouro que fura o escuro do sertão, aquele tiro solto na noite vazia pra afugentar os calafrios, pra provar pra nós que tamos ali de fato aguentando o rojão do breu do Sussuarão e as sombras assombrantes da caatinga. O doutor vai entender: o tiro não precisa matar coruja nem espantar cobra, ele só carece existir pro silêncio não comer o lombo da gente. Eu apontei que o “Nonada”, a beirada da minha estória que estou pronto a assentar no papel amarelado, é exatamente esse primeiro estampido de pederneira rasgando a barriga cega do desconhecimento grosso. A minha letra inicial na página branca vai ser o tiro cego, Doutor João! Um pipoco seco na noite do meu peito, e aí a enchente inteira vai ter permissão de arrombar por cima.

O Ted me açoitou e foi pro canto, mas eu amolei bem a minha peixeira naquele amolador dele e entendi. Se amarrar o osso das minhas angústias e botar as memórias do Diadorim correndo pro papel grosso eu não morro estancado nas mágoas apodrecidas. O gringo me passou a precisão que pra a saudade dar fruto o jagunço aqui tem que despejar o balaio.

Agora que a porteira da prosa dele encerrou na tranca seca, sinto um arrepio e até um orgulho lascado, sabe? Ele atestou a cicatriz dolorida que as prosas deixaram na carne mansa dele lá nas lonjuras. A semente que a vida frouxa aqui do mato cuspiu na página dele vingou de jeito desajeitado no estômago do estrangeiro, e pra sempre a travessia das minhas cruzes será de conhecimento no arrasto dos dias dele. As vezes fico matutando perante os besouros na lamparina… e se acabar o papel e esse Ted esvaziar a cabeça no tempo distante sem eu, a poeira volta e estraga tudo? O doutor que é estudado, será que um causo nosso só vinga forte quando amarra e assusta quem do outro lado resolve escutar o som das rédeas soltas da gente?

Mas Doutor, minha caneta encheu o bico. Eu destampo minha lida. O primeiro talho no papel liso do Grande Sertão vai pipocar da minha coragem, arrumando a estaca na bacia das dores e amores das águas de Deus pra lavar pro peito de cada desconhecido.

Me dê as bênçãos pra assombração da estória, doutor. O arrasto da enchente vai arrancar tudo pelas raízes.

Um abraço sincero,

Riobaldo