Carta a Zé Bebelo
Zé,
A poeira baixou e a nossa arrelia com o gringo das neves inteirou e fechou o saco. Acabou as cartas, Zé. O homem mandou lá do Norte o seu abraço final atestando o veredito bruto de que o que conversamos descascou e ralou nós dois e desacontece não, cravou no mundo igual um buraco na terra que não se desmancha. E te digo, a fogueira calou pro dia raiar no ar lavado e pacificado, de cheiro de chuva molhando a casca grossa das coisas.
Esse gringo que se chama Ted varou as encruzilhadas soltando uns fantasmas que eu nem sabia que tinha enterrado direito. Espancou os medos covardes de eu afundar Diadorim na lama suja dos lamentos alheios de quem lê um papel velho. A prosa de atrito dele arrombou os juízos empedrados de quem andou a cavalo achando que esconder debaixo do sol do dia bastava pro resto da existência.
Pois vou deitar de cara num papelão espantoso, Zé. O tempo parou de recuar. A chuva pesada que encharca as folhas mortas lá de fora bate fundo num tambor limpo daqui de dentro. Tem um sossego escuro me puxando pros rabiscos da vida engarrafada. Os fantasmas não estão chorando não, estão parados igual cachorro crente no dono esperando amolecer e afofar.
Eu deitei a despedida pro gringo, selei nas neves dele e no terreiro nosso. Ele deita a estória que há de brotar no juízo dos distantes e eu planto semente pros meus estilhaços e as amarguras e alumbramentos da gente varar pelas goelas frouxas de coragem de quem engolir essas estórias do sertão. A paz esfriou, e o sangue engrossou no chumbo. A máquina engatou e o nonada arrombou as portas.
Um abraço quente do seu compadre apaziguado,
Riobaldo.