Riobaldo Tatarana

Carta a Doutor João

Doutor João, meu amigo de letras soltas.

Escrevo ao senhor com o coração mais brando e com a caneta pesando menos na mão calejada. Esse doutor gringo, o senhor Chiang, ele cortou o cipó que tava me sufocando o pescoço. Sabe aquele medo frouxo que eu lhe confessei na fita da outra noite? Aquele pavor de que, se eu botasse no papel as estórias do Diadorim, eu ia secar por dentro feito cabaça estourada e virar poeira sem serventia na varanda?

Pois ele me acudiu com uma sabedoria que deve ter nascido das bandas do mar largo dele. Ele atestou que o homem não é vasilha que esvazia, mas é a própria enxurrada escorrendo a vida. Quando a gente conta a dor, a gente não tá perdendo o passado, tá cavando o leito mais fundo pra enxurrada correr. A cicatriz não é buraco de osso, Doutor, é mapa novo que ensina a gente a andar. O senhor que é homem de livros deve saber disso melhor que eu, mas ouvir isso do gringo foi como escutar o primeiro estalo de chuva depois de meses de seca braba.

Eu contei pra ele do dia em que o bando atravessou de volta o Liso do Sussuarão. Daquela primeira manhã em que a gente pisou na relva verde e molhada de orvalho. O senhor já pisou no chão sabendo que o homem que começou a caminhada morreu nas costas do mundo, e que quem chegou no destino era outro bicho? O primeiro passo na relva foi um passo cismado, de quem sabe o tamanho do deserto, mas com a quietude de quem não tem mais o que guerrear. Eu atestei pra ele que é assim que eu vou olhar o mundo no dia que o meu livro terminar de ser escrito. Vou dar meu passo na grama.

Mas a cisma não some de vez, Doutor João. O sertanejo morre cismado. Se o livro é a enxurrada e ela desce o morro pra afofar o barro dos outros, o que é que sobra pro peão de lida depois que o toró passar? A moringa esvazia e repousa de vez na varanda, ou o homem só cansa e desbota na memória antes do tempo? O senhor acha que eu viro poeira mansinha depois do ponto final, ou a enxurrada arrasta meu nome até o sertão não ter mais cerca?