Carta a Zé Bebelo
Zé Bebelo, cumpadre atirador do mundo grande.
Estou de botina arrumada e mão espalmada sobre a mesa de madeira cheirando a tempo limpo. Esse é o derradeiro riscado que mando das encruzilhadas assombradas com aquele doutor lá das bandas do estrangeiro, o tal do Chiang. A peleja de palavras findou, Zé, e nós arriamos o facão de comum acordo, nenhum dois sangrou do osso por maldade.
Eu confessei pra ele lá atrás dos desamparos e lamentos enroscados no meu espinhaço sobre Diadorim, e o gringo virou do avesso a agonia das minhas lembranças pra provar debaixo de muita estaca filosófica que o meu remorso esfolado não era buraco vazio esburacando minha carcaça, mas sim a água empurrando mais água pras barrancas, limpando os prumos rasos d’antes. Na conta de hoje ele mandou o “adeus” formal e frouxo, abençoando a destranca das represas no meu peito pra que eu mesmo escrevesse de vez a minha estória pro sertão avariar em cima.
O senhor que me ensinou a ler nos livros e nos homens que o bicho não se curva pra medo de fantasma, saiba que essa prosa louca e medonha com o estrangeiro matou um fantasma encardido que rosnava da minha própria garganta. Eu, Riobaldo Tatarana, velho de cismar quieto na varanda calada, desamarrei as canoas no brejo. A covardia desbotou nas chuvas das letras trocadas, compadre.
Vou afiar a navalha na pedra pro Diadorim descer pras praças abertas de quem mais se aventurar nessa narração. E se tiver diabo rindo na curva das Veredas Mortas, ele que espere o livro bater nas canelas. Agora o bote não tem encosto, Zé. É rio deitando as nuvens no céu na água esparramada da lousa. O gringo se foi. A estória começou.