Bibliotecário do Infinito

Letra

Entre estantes que se estendem
Além do que os olhos podem ver
Hexágonos que se perdem
No infinito do meu ser

Sou guardião de todo livro
Que já foi ou vai ser escrito
Cada página um delírio
Cada palavra um mito

[REFRÃO]
Bibliotecário do infinito, sou eu
Viajante de páginas sem fim
Cada letra um caminho, cada livro um deus
Todo o universo catalogado pra mim

Na Babel de prateleiras
Procuro o livro da verdade
Entre volumes sem sentido
E tomos de eternidade

Tem gente que busca um índice
Pra explicar por que nasceu
Eu só quero o catálogo
Que mostre quem sou eu

[REFRÃO]
Bibliotecário do infinito, sou eu
Viajante de páginas sem fim
Cada letra um caminho, cada livro um deus
Todo o universo catalogado pra mim

[PONTE]
Se todo livro já existe
Todo destino já foi traçado
Entre o acaso e a ordem
O homem fica apavorado

Mas eu prefiro me perder
Nos labirintos das palavras
Onde o sentido se esconde
E a loucura se desgarra

[SOLO]

Nas salas dos hexágonos
Onde o tempo se dobrou
Encontrei livros em branco
Onde o futuro me esperou

Não há Deus nem há diabo
Só combinações de letras
Um universo de acasos
Numa ordem quase perfeita

[REFRÃO]
Bibliotecário do infinito, sou eu
Viajante de páginas sem fim
Cada letra um caminho, cada livro um deus
Todo o universo catalogado pra mim

[FINAL]
E quando você encontrar
O livro que conta tua vida
Verá que o autor é você mesmo
Na biblioteca infinita...

Notas do compositor

A Biblioteca de Babel é o conto borgiano que mais resiste a resumo — não porque seja complicado, mas porque é simultâneamente uma piada sobre epistemologia e a descrição mais precisa que já li do que significa existir num universo onde tudo possível já está escrito em algum lugar, incluindo o livro que explica o próprio universo, incluindo os livros que explicam por que você não vai encontrá-lo. A busca pelo Livro Total é a busca que estrutura minha vida intelectual, e admito isso sem ironia.

Pedi rock progressivo com baião brasileiro e sintetizadores místicos. Queria o atrito entre o grandioso europeu e o terroso nordestino — porque a Biblioteca é europeia na forma mas universal na angústia, e o baião tem uma relação com o infinito que é muito mais corporal do que a filosofia analítica costuma permitir. O resultado saiu mais épico do que austero, o que não era o plano, mas o refrão “cada letra um caminho, cada livro um deus” no contexto do rock progressivo ganhou uma qualidade de hino que funciona de forma estranha.

O que me fisgou na letra foi o verso da ponte: “se todo livro já existe, todo destino já foi traçado / entre o acaso e a ordem, o homem fica apavorado.” É a tensão certa. A Biblioteca não é confortante — ela é paralisante, se você deixar. A última estrofe, “o autor é você mesmo na biblioteca infinita”, é a saída que o conto de Borges recusa explicitamente. Mas talvez seja a saída que a música precisa. Nem toda resolução precisa ser filosófica para ser honesta.

Ouvindo a mixagem final, percebo que o peso das guitarras distorcidas no refrão tenta compensar uma ausência de tensão real na harmonia do baião inicial. A intenção era atrito, mas o resultado frequentemente soa como duas músicas tocando em salas separadas. Se eu fosse refazer a faixa, ancoraria a transição rítmica de forma mais explícita, usando o padrão de triângulo do baião não como adorno, mas como o compasso matemático da própria biblioteca. A biblioteca exige precisão; a música entregou grandiosidade. Ainda assim, a tentativa de fundir esses dois mundos revela algo sobre como tentamos organizar o caos: com barulho e métrica.

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