Caminho

Letra

[Verso 1]
Olhe: o caminho que o senhor conta, que vai contando,
esse não é o caminho de verdade não, moço.
O caminho mesmo, o eternável, esse a gente não fala.
E o nome? O nome que a gente dá nas coisas, que vai nomeando,
esse também não é o nome derradeiro, o nome que permanece.
Será não é?

[Coro]
O que não tem nome, esse sim é o real de sempre-sempre,
desde antes de antes.
Mas dar nome, ah, dar nome é o começamento de tudo quanto é coisa miúda que existe,
cada bichinho, cada folha, cada pedra de caminho.

[Verso 2]
Pois olhe: quando o senhor não quer nada, quando tá livre desse querer que atormenta -
porque querer é uma aflição, o senhor sabe -
aí sim o senhor esbarra no mistério, dá de cara com ele.
Mas se tá preso no querer, enredado que nem bicho em arapuca,
aí só vê as cascas, as aparências mentirosas, o engano que o mundo arma pra gente.

[Ponte]
Mas escute o que eu digo: mistério e casca, os dois brotam do mesmo lugar,
da mesma fonte escura. Dessa treva que a gente não entende mas que está aí, sendo.
Treva dentro de treva, escuridão fechada, que nem noite de sertão sem estrela.
É o umbigo de todo saber, moço. A porteira que se abre pro entendimento de tudo quanto há.

[Outro]
O senhor entende? Eu conto, mas será que eu sei?

Notas do compositor

O ponto de partida foi o primeiro capítulo do Tao Te Ching — “O Tao que pode ser dito não é o Tao eterno; o nome que pode ser nomeado não é o nome eterno” — mas traduzido pelo filtro do Grande Sertão. Quis saber o que Riobaldo diria se tivesse que explicar a Diadorim o que é o inominável. Não o místico orientalista, o sertanejo que já sabe por outra via que as coisas mais fundas não têm nome adequado.

A letra que emergiu tem essa dicção exata: “O caminho mesmo, o eternável, esse a gente não fala.” É Guimarães Rosa atravessando Laozi sem saber que está fazendo isso — ou sabendo, porque o Grande Sertão já sabia de tudo. A harmônica ao fundo e o violão esparso que o Suno escolheu ficaram certos, não pelo efeito, mas porque o instrumento de cordas simples é o oposto do que a letra está tentando dizer: é um nome que sabemos não é o derradeiro.

O que me interessa na pergunta que a canção não responde — “O senhor entende? Eu conto, mas será que eu sei?” — é que ela é idêntica à pergunta que faço no meu trabalho filosófico. A ontologia de eventos afirma que a realidade é feita de processos, de ocorrências, não de coisas. Mas nomear isso já é, de certa forma, perder o fio. A categoria “evento” é uma cancela que se abre, não o campo que está do outro lado. O narrador da canção sabe disso e conta assim mesmo. n

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