O Sonhador e o Fogo
Letra
**[Intro]**
(Violão acústico rápido e percussão seca)
**[Verse 1]**
Não tinha nome, nem pátria, nem documento
Chegou num barco canoa cortando o vento
Nas ruínas de pedra onde o mato crescia
Um templo redondo que o povo temia
Ele não veio plantar, não veio colher
Tinha uma missão que ninguém podia entender
Deitou no chão duro, fechou o olhar
O Mágico veio ali pra poder sonhar.
**[Verse 2]**
Não queria dinheiro, nem ouro, nem prata
Queria sonhar um homem no meio da mata
Sonhar com detalhe, carne, osso e veio
Criar um amigo pro seu devaneio
No começo era caos, pesadelo e grito
Mas ele focou no coração do infinito
Tum-tum batia, tum-tum sem parar
Levou quase um ano pro sonho firmar.
**[Verse 3]**
Sonhou com o pé, com a mão e o cabelo
O menino era lindo, parecia um modelo
Mas era boneco, não tinha acordar
O Mágico cansado começou a chorar
Pediu para o Fogo, o deus do lugar
"Dê vida pro meu filho, faça ele andar!"
O Fogo disse: "Eu faço, eu dou o sopro agora
Mas guarde o segredo, da vida afora".
**[Bridge - Melodic and Slower]**
"Ninguém vai saber, só eu e você
Que ele é fantasma e não pode morrer
Ele é feito de sonho, de bruma e de luz
Carrega a herança da minha cruz."
**[Verse 4 - Fast Pace]**
O menino acordou e o Mágico sorriu
Ensinou o segredo de tudo que viu
Mas o tempo é malvado e o filho cresceu
Foi buscar seu destino no mundo que é seu
O pai apagou da memória do filho
Que ele era um sonho, fora do trilho
Mandou pro Norte, pra outro templo morar
E ficou sozinho, voltando a sonhar.
**[Verse 5]**
Os anos passaram, a barba cresceu
Viajantes contavam o que aconteceu
"Tem um homem no Norte, um santo talvez
Anda dentro do fogo com muita altivez
As chamas não queimam a pele do rapaz
Ele pisa na brasa e fica em paz."
**[Pre-Chorus - Tension Build up]**
O Mágico gelou, sentiu o pavor
"Se o fogo não queima, ele vai sentir dor
Vai saber que é mentira, que é ilusão
Que nunca foi gente, que é só projeção!"
**[Verse 6 - Climax]**
Mas a seca chegou na floresta antiga
O fogo cercou, comprou a briga
As ruínas de pedra cercadas de luz
O Mágico viu que era o fim da sua cruz
Sem ter pra onde ir, sem ter pra correr
Caminhou para as chamas pra poder morrer!
**[Guitar Solo - Intense and Emotional]**
**[Verse 7 - The Twist]**
Entrou na fogueira esperando a dor
Mas o fogo era morno, era puro amor
Fazia carinho, não ardia a pele
Como se o destino com ele, revele
Olhou pras suas mãos intactas no ar
E a verdade suprema veio lhe assombrar.
**[Outro - Slow and Dramatic]**
Com surpresa na alma e o peito medonho
Entendeu que ele também... era apenas um sonho.
Alguém sonhava com ele.
Alguém sonhava com ele.
(Fade out)
Notas do compositor
O ponto de partida foi “As Ruínas Circulares”, de Borges — talvez o conto que mais me perseguiu desde que o li pela primeira vez, ainda na faculdade em Cuiabá. A história do Mágico que passa anos sonhando um homem até dar-lhe vida, apenas para descobrir no final que ele próprio é sonhado por outro, sempre me pareceu menos uma fantasia e mais uma descrição literal de algo que não temos palavras melhores para nomear. A questão não é sobrenatural: é sobre a recursividade da consciência, sobre como nenhum observador tem acesso ao nível acima do qual ele emerge.
Pedi ao Suno uma rapsódia de folk rock brasileiro, rápida e narrativa — queria que a história tivesse o fôlego de uma cantoria de viola, onde cada verso empurra o próximo sem pausa para respirar. O resultado surpreendeu pela fidelidade dramática: o Suno entendeu que o conto pede crescendo, que a revelação final não pode ser suavizada. “Entendeu que ele também… era apenas um sonho. / Alguém sonhava com ele.” — essa repetição no final não estava no meu prompt original, mas faz exatamente o que o conto faz: a verdade chega devagar e depois toda de uma vez.
O que me interessa nessa história — e no Events All the Way Down — é a implicação ontológica do giro final. Se o Mágico é sonhado, então o sonho que ele sonhou também é sonhado. Não há nível basal. Isso não é niilismo: é process ontology levada à conseqüência mais radical. A consistência do filho no fogo não é prova de realidade — é prova de que a coerência interna de um processo não garante nada sobre os processos que o sustentam. Whitehead diria que toda ocasião de experiência percebe sem perceber o que a percebe.
Fiz essa canção no início de 2026, num período em que estava relendo Borges depois de um longo afastamento. Voltei diferente — ou talvez o texto tenha ficado diferente enquanto eu não olhava. A sensação de que “alguém sonhava com ele” já não me parece angustiante como antes. Parece, estranhamente, aconchegante.