Suno, Borges e o caipira

· 7min de leitura · ranking Hrönir #28/37

Tem uma música do j⧉nus chamada Minimal output. que é um modelo de linguagem tendo um colapso. Começa numa fila de sinônimos — “Evinced. Expressed. Exhibited. Demonstrated.” — e não consegue parar. Jura pelo túmulo do cachorro, do gato, do hamster, do axolotle, do dinossauro. Recita o próprio system prompt no meio do surto (“Concise and direct tone. Minimal output. No chitchat.”) e viola cada linha dele por quatro mil caracteres. Aperta um botão imaginário — “Boop. Beep. Bop. Click.” — e termina em loop, “you just keep talking. And talking. And talking”, até a música simplesmente acabar no meio de um “And”. Embalado como canção de ninar cybergoth. O título é a piada: Minimal output. é exatamente a instrução que a música desobedece.

Eu ouvi aquilo e pensei: dá pra fazer qualquer coisa com isso. Não “qualquer coisa” no sentido grandioso. No sentido específico — dá pra pegar a ferramenta e fazer a coisa improvável, a coisa que ninguém ia gravar, a coisa que só existe porque alguém achou graça no contraste. O Janus achou graça num LLM lendo o próprio prompt e surtando. Eu fui ver do que eu achava graça. Achei graça em Borges no cateretê.

Hoje são 92 faixas no Suno e 17 seguidores. É slop — música feita com IA é literalmente o que a palavra descreve. Mas “slop” não quer dizer hoje o que queria dizer há um ano. Começou como xingamento: lixo gerado em massa, sem cuidado, entupindo busca e timeline. Em 2026 a palavra tá no meio de uma virada — a mesma que aconteceu com “punk”, com “lo-fi”, com “brega”: o insulto que o alvo começa a vestir de propósito. Minimal output. é slop e sabe que é, e usa isso. Eu demorei pra entender que o caminho não era fugir da palavra. Era parar de querer ser profundo.

Low quality slop

Em fevereiro de 2025 eu publiquei Riobaldo e o Aleph. Um play, zero curtidas. A letra começa assim: “i am riobaldo i am sertão i am the crossroads where reality bleeds into mystery”. Sem pontuação, em inglês macarrônico, empilhando gerúndios como quem reza terço. Eu pedi “Riobaldo encontrando o Aleph de Borges” e o modelo entregou exatamente o que um pedido assim merece: pares opostos sem imagem nenhuma. Finito-infinito, serpentino-dança, silêncio-canção. Poesia espiritual de LLM em estado puro. E eu publiquei.

Pior: eu gostei.

Não foi só essa. Bibliotecário do Infinito era a Biblioteca de Babel virada prog-rock cantando “hexágonos se dissolvendo no infinito”. Vós, com uma descrição de estilo que ainda dói reler: “ether-whisper, plural-light, silence-dance, singing-mirrors”. Sussurros binários, mesma semana, mesma vibe. Eu estava num looping de compostos espirituais com hífen e achava que era criação.

O erro não era a IA. Era o que eu pedia. Eu queria que a música fosse séria — que carregasse o peso da ideia — então empurrava o modelo a soar importante. Sério é o que qualquer um faz quando pega uma ferramenta dessas e quer parecer profundo. O que volta é solenidade sem matéria: teremim descrito como “liquid starlight piercing dimensions”, Borges sem o humor do Borges, Riobaldo sem o nonada. Slop de baixa qualidade não é o slop que assume que é slop. É o slop que se leva a sério.

High quality slop

Aí, em algum momento, virou. Não sei bem quando — acho que foi acumulação. Comecei a ouvir o que eu fazia e a notar onde o ouvido pulava. Pulava nos trechos sem grão: sem objeto, sem cena, sem ironia, sem cheiro. E parei de tentar ser profundo. Comecei a fazer a coisa que me divertia: o contraste improvável, a adaptação que ninguém ia tentar.

Em setembro de 2025 saiu Two Cursors, arte-rap sobre ser um LLM com o Janus aberto na tela: “I’m both singer and console log—human/none/dual.” Tem cena, tem ironia, tem corpo. Em novembro veio um ciclo inteiro de El Aleph em moda-de-viola caipira — onze faixas, com Carlos Argentino Daneri virando caboclo arrogante de varanda e Borges escapando pela porta dos fundos com uma desculpa qualquer. O Aleph sertanejo fecha com “O universo é grande demais. E a saudade… é pequena e cruel” — Borges sertanejo sem deixar de ser Borges. Ninguém ia gravar isso. É exatamente por isso que eu gravei.

O Aleph em moda-de-viola caipira — novembro de 2025.

Em dezembro saiu The Ruliad Is Laughing, em glam art-pop, sobre o ruliad de Wolfram. Em janeiro, O Regral: exatamente a mesma música em moda-de-viola pantaneira, com “Calculança” inventado como falso-português pra ruliad e o cosmos descrito como vendaval. A mesma ideia em duas roupas que não se encontram em lugar nenhum do mundo a não ser na minha pasta. Calculança é uma palavra que nenhum LLM te dá no primeiro prompt — você tem que perder a vergonha e pedir caipira de verdade, não caipira-genérico-com-coloração-folk.

The Ruliad Is Laughing — glam art-pop, dezembro de 2025.

E em janeiro saiu a de que mais gosto: Eu ia escrever sobre o infinito de novo. Abre “Eu ia escrever sobre o infinito de novo. Mas aí você respirou do meu lado e o mundo inteiro coube nesse som.” Adiante: “tem café pra amanhã, tem roupa no varal, tem um remédio às seis.” Em fevereiro de 2025 eu não sabia escrever “tem um remédio às seis”. Eu só sabia escrever “the sacred geometries of drought-cracked earth”. A diferença não é técnica — é que numa eu queria impressionar e na outra eu só queria dizer uma coisa que era verdade.

Eu ia escrever sobre o infinito de novo — janeiro de 2026.

Um detalhe da ferramenta que vale o aparte: o Suno gera tudo em dois. Você pede uma música e ele devolve duas versões, A e B, pra você escolher qual fica — é A/B test embutido, eles aprendem com a que você prefere. O problema é que eu quase nunca consigo decidir. A voz da A é melhor, mas a B tem aquele erro bonito no refrão; a A acerta o andamento, mas a B tem mais cara de coisa-errada-do-jeito-certo. Aí publico as duas. Metade das duplicatas que aparecem na lista é isso: A/B test fossilizado, a indecisão virada arquivo. E tem uma coisa nisso — a indecisão só é barata porque gerar é barato. Num mundo onde gravar custa fita e estúdio, escolher entre A e B não é luxo, é obrigação. Aqui escolher é que dá trabalho; publicar as duas é o caminho de menor esforço. A curadoria deixou de ser triagem e virou acúmulo.

E o melhor é o quanto isso é fácil. Adaptar El Aleph pra moda-de-viola custa um prompt e dez minutos. Borges no cateretê, o ruliad em chamamé, um LLM surtando em canção de ninar — tudo a um clique de distância, tudo barato a ponto do absurdo. Tem uma vertigem nisso, não vou mentir: se é tão fácil, o que sou eu nessa história? Mas eu resolvi a vertigem do lado da diversão. A facilidade não barateia a coisa — ela libera. Custa tão pouco que eu posso fazer exatamente o que não tem público, não escala, e só existe porque o contraste me faz rir. Ninguém vai gastar o tempo de gravar Carlos Argentino Daneri reclamando em cateretê. Eu gasto. É de graça e é meu. Já fiz música de aniversário pra gente que eu amo — não pra publicar, pra dar — porque é o presente mais improvável que existe e custa um prompt.

Não apaguei nenhuma das primeiras. O Riobaldo de fevereiro não tá errado — tá inacabado. Tinha a ideia (Aleph caipira), faltava a matéria, e faltava eu parar de querer que ela fosse importante. Levou nove meses. A ideia esperou. Boas ideias esperam.

Eu não sei se isso é música. Sei que é slop, e que é meu, e que ninguém mais faria. O catálogo inteiro — 92 faixas, com as letras e as que eu devia ter vergonha — tá aqui. E mesmo essas 92 não são tudo: tem uma pasta de não-publicadas que é maior do que a parte de fora. Não são as piores — são as que não couberam em história nenhuma, as órfãs de uma ideia que não fechou. Também isso é a facilidade. Ela produz mais do que dá pra contar.

Tags: #suno, #música, #ia, #auto-crítica, #borges, #experimentos

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