
Letra
[Verso 1]
Quando acordo de manhã
Eu não chego inteiro de uma vez
Primeiro existe só alguma consciência
Sem endereço
Sem passado
Sem nome
Depois o teto aparece
A luz entra pela janela
O corpo informa o próprio peso
Um pensamento pergunta:
Onde é que eu estou?
Outro pergunta:
Que horas são?
E aos poucos
Como uma máquina antiga
Tentando lembrar a senha
A pessoa que eu chamo de eu
Volta a funcionar
[Pré-Refrão]
Você pode dizer que são neurônios
Mudando de estado
Num corpo
Num quarto
Ou dizer que o mundo se condensa
De alguma coisa sem contorno
Eu não preciso escolher
Eu não preciso escolher
[Refrão]
Talvez o padrão venha antes da pedra
Talvez a forma seja tudo que se vê
Hábitos da percepção
Aprendendo a permanecer
A gente encontra um ritmo
E chama de lei
Encontra o que dura
E chama de matéria
Talvez a pedra seja só a história
Que ainda não se desfez
[Verso 2]
A ciência é bonita
Eu confio no instrumento
Na medida
No resultado que se repete
Mas não sei se as partículas
São o porão do mundo
Ou se as equações alcançam
O último chão
Talvez aquilo que chamamos de realidade
Seja uma rede de relações
Lembrando de si mesma
Uma história de observações
Comprimida numa lei
Dá para construir uma ponte
Prever uma órbita
Partir um átomo
Sem decidir
Do que o universo é feito
Quando ninguém está olhando
[Pré-Refrão]
Primeiro vem a experiência
Depois a reação
Depois o espaço entre as coisas
E o padrão só existe
Nesse espaço entre as coisas
Talvez a matéria não seja ilusão
Talvez seja apenas
Um padrão
Que aprendeu a ficar
[Refrão]
Talvez o padrão venha antes da pedra
Talvez ninguém exista por si só
Nós, pequenos nós numa rede em movimento
Dizendo por um tempo: eu
A gente encontra um ritmo
E chama de lei
Encontra o que dura
E chama de matéria
Mas por baixo do nome
Por baixo da forma
É processo
Até o fim
[Ponte]
Eu não preciso de uma teoria limpa
Posso manter a tela dividida
Sem obrigar ninguém a escolher um lado
O engenheiro e o místico
Na mesma cadeira
As mesmas mãos
O mesmo café sem graça
E quando aparece alguma coisa estranha
Uma falha na leitura
Uma linha no ruído
Uma forma que não consigo esquecer
Talvez seja um truque
Talvez seja vontade
Talvez seja o meu cérebro
Fazendo o que cérebros fazem
Talvez seja a física
Ainda meio vestida
Ainda aprendendo o próprio nome
Me dê a margem de erro
Me dê o mapa
Me dê um jeito de estar errado
Só não passe uma fita
Em volta do que não entendemos
E escreva na fita: verdade
[Refrão Final]
Talvez o padrão venha antes da pedra
Talvez o eu seja alguma coisa de passagem
Uma onda que sempre volta
E confunde o ritmo com verdade
Nós nos condensamos
Nós nos desfazemos
O campo fala aqui e agora
Por um instante
Ele diz meu nome
E eu penso que aquele som sou eu
Talvez a pedra seja só a história
Que ainda não se desfez
Talvez eu também seja uma história
Que acorda toda manhã
[Final]
Não está provado
Não é um teorema
Não é o segredo
Por baixo de tudo
É só o que sobra
Quando a máquina fica quieta
Sem nome
Sem argumento
Sem precisar escolher
Só consciência
Flutuando
Antes que o mundo
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