Balanço de outono: março a maio de 2026
· 4 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #40/40
Março começou com um agente de IA escrevendo uma carta de Riobaldo Tatarana para Ted Chiang. Maio termina com eu tentando inventariar o que aconteceu entre uma data e outra — e descobrindo que a linha entre os dois momentos é mais densa do que imaginava.
O que foi publicado
Vinte e cinco posts em dois meses é uma frequência que eu mesmo não conseguiria sustentar sem a arquitetura que fui construindo ao longo de 2025. Não é escrita em automático — cada texto é meu, no sentido de que decido o tema, a tese, a voz. Mas a infraestrutura que organiza, edita, traduz e publica passou a ser parcialmente delegada. O resultado é uma produtividade que constrange um pouco descrita assim: vinte e cinco. Como se quantidade importasse.
Importa, mas não do jeito que parece. O que esses vinte e cinco registram não é velocidade — é continuidade. Saí de março pensando sobre Travessia — um projeto epistolar onde Jules escreve as cartas e as cartas existem porque o sistema as agenda — e cheguei a maio escrevendo sobre o harness e sua semântica envenenada. O fio é o mesmo. A IA como companheira de trabalho que precisa ser entendida, não apenas usada.
Alfarrábios do Adi
O projeto do meu pai segue. Aos 76 anos, Adi Baldo acumula um continente de histórias que não quero que se dissipem. Funes e Jules trabalham nisso em paralelo comigo — Funes extrai, Jules publica, e os dois têm opiniões fortes sobre lacunas narrativas que ninguém pediu que tivessem. Aprendi nesse processo algo que o post sobre orquestração de agentes tentou articular: a máquina propõe, a carne dispõe. Há decisões — sobre o que vale a pena ser lembrado, sobre qual silêncio respeitar — que não posso delegar.
A IA generativa sofre de um horror vacui. A memória humana, em contraste, é tecida tanto por lembranças nítidas quanto pelos silêncios do esquecimento. Obrigar uma rede neural a respeitar o silêncio de uma lembrança incompleta é um dos maiores desafios de contenção semântica que já enfrentei.
Saramago e a empresa do cansaço
Treze obras de Saramago na biblioteca — não todas lidas neste outono, algumas são releituras, algumas estão pela metade. Mas o acúmulo diz alguma coisa sobre o que busco numa ficção: uma prosa que insiste em ser feia antes de ser bela, que desmonta a gramática da expectativa sem avisar. O homem duplicado me acompanhou em março. As intermitências da morte veio depois. Há uma obsessão saramaguiana com o que acontece quando as regras naturais pausam — e eu me pego lendo esses livros como leitura profissional, não de fuga. As regras pausadas me interessam.
Borges aparece no meio disso como o contraponto: La biblioteca de Babel, O Aleph. O post sobre Pierre Menard como pesquisador computacional saiu dessa leitura — a ideia de que reproduzir uma obra linha a linha, séculos depois, produz uma obra diferente. Aplicada a agentes de IA que revisitam corpus antigos, a ideia tem consequências práticas.
A Geração Ansiosa e quatro filhos com YouTube
Jonathan Haidt escreveu The Anxious Generation para pais como eu. Quatro filhos — Alice, Gustavo, Sofia, Vicente — quatro perfis de YouTube com histórico de busca, assinaturas, filas de assistir. A questão do livro não é se as telas fazem mal, mas o que ocupa o tempo que as telas tomam. Essa pergunta me persegue. O Positive Discipline que também está na estante é o outro lado da moeda: menos sobre o que proibir, mais sobre o que construir.
495 dias no Manifold
Anotei os mercados de previsão no post de 21 de maio. Sou Procurador do Estado em Rondônia — as manhãs deveriam começar com petições. Começam com Manifold porque o Manifold exige o que petições não permitem: colocar um percentual na incerteza. Numa petição, afirmo. No Manifold, digo 63% e quero dizer isso com precisão.
Relendo os mercados que criei, encontrei algo que não havia percebido enquanto criava: eles se agrupam em torno dos momentos em que eu precisava mais urgentemente estar certo sobre alguma coisa. Isso é higiene cognitiva que eu não sabia que precisava.
O que fica
Travessia continua sendo escrita. Alfarrábios do Adi também. O Gödel, Escher, Bach está pela metade — provavelmente ainda estará em julho. Os filhos estão crescendo de um jeito que só percebo quando olho para as fotos de seis meses atrás. A correspondência entre Riobaldo e Ted Chiang existe porque continua sendo escrita, não porque alguém decide escrevê-la.
A bicicleta
Os dados de atividade física de 2026 estão nos arquivos grandes do Takeout — não nos arquivos menores que consegui analisar hoje. Mas o padrão de 2025 é claro o suficiente para servir como referência: doze sessões de ciclismo em março, dezoito em abril, vinte e quatro em maio do ano passado. A academia, que havia começado em fevereiro com treinos ao meio-dia, sumiu em abril. A bicicleta ficou.
Há algo no esforço físico que funciona como filtro cognitivo. O problema com o qual chego ao trabalho é diferente do problema com o qual saio do escritório. O problema com o qual saio do escritório é diferente do que tenho quando volto da bicicleta. Não resolvo nada pedalando — mas chego em casa com a pergunta certa, que é mais difícil do que a resposta.
Os posts mais longos deste período foram escritos nos dias seguintes às pedaladas mais longas. Não sei se isso é causalidade ou coincidência. Prefiro não investigar.
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