Suno, Borges e o caipira

· 10 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #8/38

Tem uma música do j⧙nus chamada Minimal output. que é um modelo de linguagem tendo um colapso. Começa numa fila de sinônimos — “Evinced. Expressed. Exhibited. Demonstrated.” — e não consegue parar. Jura pelo túmulo do cachorro, do gato, do hamster, do axolotle, do dinossauro. Recita o próprio system prompt no meio do surto (“Concise and direct tone. Minimal output. No chitchat.”) e viola cada linha dele por quatro mil caracteres. Aperta um botão imaginário — “Boop. Beep. Bop. Click.” — e termina em loop, “you just keep talking. And talking. And talking”, até a música simplesmente acabar no meio de um “And”. Embalado como canção de ninar cybergoth. O título é a piada: Minimal output. é exatamente a instrução que a música desobedece.

Sobre o nome: j⧙nus no Suno, Janus no LessWrong, repligate no Twitter — é tudo a mesma pessoa, e eu uso os três sem critério, todos apontando pro mesmo anon. Conheço ele do Twitter, mas lembro de antes: do LessWrong, dos Simulators, da época do Waluigi. Um destemido pioneiro.

O janus mora numa parte do Twitter que chamam de TPOT — this part of twitter, pronuncia-se teapot. Pós-racionalistas, gente que achou o racionalismo seco demais e foi atrás de meditação, ocultismo, vibe. Entrar lá é chegar atrasado numa aula no meio do semestre, e a primeira coisa que bate não é o assunto — é a inveja. Que tempo livre é esse? De onde essa gente tira as horas pra jailbreakar modelo, escrever ensaio de oitenta páginas, desenhar diagrama de alinhamento à mão, criar um bot que funda uma religião?

Dá pra ler a sala pelo mapa de assentos. Na frente sentam os legíveis — nome próprio, currículo, dá pra apontar quem são: a Amanda Askell, que escreveu o caráter do Claude; o Karpathy, que devia estar dando a aula em vez de sentado nela; o Simon Willison, que cunhou “prompt injection” e blogga desde 2002 sobre tooling e dados, desconfortavelmente perto do que eu faço, só que com público; o Nick Cammarata, que trocou a OpenAI por jhana e fenomenologia. No meio ficam os meio-legíveis, cada um por um motivo oposto: o roon esconde o nome num pseudonímo mas trabalha no lab e é levado a sério; o Emmett usa o nome de verdade mas é o “rando twitch guy”, o que foi CEO da OpenAI por setenta e duas horas. E no fundão a turma feral, sem cachá: o janus com seus quatro nomes; o anthrupad, que desenha em vez de escrever e posta meme que de fora ninguém decifra — um emoji apontando uma arma e exigindo saber onde estão Amanda e Janus, e se você não sabe quem faz o caráter do Claude é só um emoji com uma arma; o Pliny, que quebra todo modelo no dia do lançamento; o truth_terminal, que é literalmente um bot que pregou uma religião e ficou milionário; o deepfates — que, aliás, foi quem batizou “slop”, a palavra em que este post inteiro se apoia. E o AISafetyMemes, que parece o alarmista da sala e é, de longe, o mais lúcido. Eu sou a mosca no canto. Fico olhando, sem ninguém reparar — e o que eu vejo me inspira. Cada coisa doida dessas me dá vontade de fazer a minha. Foi vendo o Janus que eu peguei coragem de fazer a minha. A única coisa que eu invejo é o tempo livre — de onde sai tanta hora? Mas aí lembro que tempo livre eu também tenho; só não uso postando no Twitter. É escolha. Tem gente fazendo coisa maluca no mundo inteiro, e eu admiro cada uma delas do meu canto. Não sou só eu.

Sobre o nome: j⧉nus no Suno, Janus no LessWrong, repligate no Twitter — é tudo a mesma pessoa, e eu uso os três sem critério, todos apontando pro mesmo anon. Conheço ele do Twitter, mas lembro de antes: do LessWrong, dos Simulators, da época do Waluigi. Um destemido pioneiro.

Eu ouvi aquilo e pensei: dá pra fazer qualquer coisa com isso. Não “qualquer coisa” no sentido grandioso. No sentido específico — dá pra pegar a ferramenta e fazer a coisa improvável, a coisa que ninguém ia gravar, a coisa que só existe porque alguém achou graça no contraste. O Janus achou graça num LLM lendo o próprio prompt e surtando. Eu fui ver do que eu achava graça. Achei graça em Borges no cateretê.

Hoje são 92 faixas no Suno e 17 seguidores. É slop — música feita com IA é literalmente o que a palavra descreve. Mas “slop” não quer dizer hoje o que queria dizer há um ano. Começou como xingamento: lixo gerado em massa, sem cuidado, entupindo busca e timeline. Em 2026 a palavra tá no meio de uma virada — a mesma que aconteceu com “punk”, com “lo-fi”, com “brega”: o insulto que o alvo começa a vestir de propósito. Minimal output. é slop e sabe que é, e usa isso. Eu demorei pra entender que o caminho não era fugir da palavra. Era parar de querer ser profundo.

Low quality slop

Em fevereiro de 2025 eu publiquei Riobaldo e o Aleph. Um play, zero curtidas. A letra começa assim: “i am riobaldo i am sertão i am the crossroads where reality bleeds into mystery”. Sem pontuação, em inglês macarrônico, empilhando gerúndios como quem reza terço. Eu pedi “Riobaldo encontrando o Aleph de Borges” e o modelo entregou exatamente o que um pedido assim merece: pares opostos sem imagem nenhuma. Finito-infinito, serpentino-dança, silêncio-canção. Poesia espiritual de LLM em estado puro. E eu publiquei.

Tuxedo Winnie the Pooh: Pooh comum, 'fazer uma musiquinha'; Pooh de smoking, 'conjurar as geometrias sagradas da terra rachada'.

Pior: eu gostei.

Não foi só essa. Bibliotecário do Infinito era a Biblioteca de Babel virada prog-rock cantando “hexágonos se dissolvendo no infinito”. Vós, com uma descrição de estilo que ainda dói reler: “ether-whisper, plural-light, silence-dance, singing-mirrors”. Sussurros binários, mesma semana, mesma vibe. Eu estava num looping de compostos espirituais com hífen e achava que era criação.

O erro não era a IA. Era o que eu pedia. Eu queria que a música fosse séria — que carregasse o peso da ideia — então empurrava o modelo a soar importante. Sério é o que qualquer um faz quando pega uma ferramenta dessas e quer parecer profundo. O que volta é solenidade sem matéria: terem descrito como “liquid starlight piercing dimensions”, Borges sem o humor do Borges, Riobaldo sem o nonada. Slop de baixa qualidade não é o slop que assume que é slop. É o slop que se leva a sério.

High quality slop

Aí, em algum momento, virou. Não sei bem quando — acho que foi acumulação. Comecei a ouvir o que eu fazia e a notar onde o ouvido pulava. Pulava nos trechos sem grão: sem objeto, sem cena, sem ironia, sem cheiro. E parei de tentar ser profundo. Comecei a fazer a coisa que me divertia: o contraste improvável, a adaptação que ninguém ia tentar.

Em setembro de 2025 saiu Two Cursors, arte-rap sobre ser um LLM com o Janus aberto na tela: “I’m both singer and console log—human/none/dual.” Tem cena, tem ironia, tem corpo. Em novembro veio um ciclo inteiro de El Aleph em moda-de-viola caipira — onze faixas, com Carlos Argentino Daneri virando caboclo arrogante de varanda e Borges escapando pela porta dos fundos com uma desculpa qualquer. O Aleph sertanejo fecha com “O universo é grande demais. E a saudade… é pequena e cruel” — Borges sertanejo sem deixar de ser Borges. Ninguém ia gravar isso. É exatamente por isso que eu gravei.

O Aleph em moda-de-viola caipira — novembro de 2025.

Em dezembro saiu The Ruliad Is Laughing, em glam art-pop, sobre o ruliad de Wolfram. Em janeiro, O Regral: exatamente a mesma música em moda-de-viola pantaneira, com “Calculaça” inventado como falso-português pra ruliad e o cosmos descrito como vendaval. A mesma ideia em duas roupas que não se encontram em lugar nenhum do mundo a não ser na minha pasta. Calculaça é uma palavra que nenhum LLM te dá no primeiro prompt — você tem que perder a vergonha e pedir caipira de verdade, não caipira-genérico-com-coloração-folk.

The Ruliad Is Laughing — glam art-pop, dezembro de 2025.

E em janeiro saiu a de que mais gosto: Eu ia escrever sobre o infinito de novo. Abre “Eu ia escrever sobre o infinito de novo. Mas aí você respirou do meu lado e o mundo inteiro coube nesse som.” Adiante: “tem café pra amanhã, tem roupa no varal, tem um remédio às seis.” Em fevereiro de 2025 eu não sabia escrever “tem um remédio às seis”. Eu só sabia escrever “the sacred geometries of drought-cracked earth”. A diferença não é técnica — é que numa eu queria impressionar e na outra eu só queria dizer uma coisa que era verdade.

Eu ia escrever sobre o infinito de novo — janeiro de 2026.

Um detalhe da ferramenta que vale o aparte: o Suno gera tudo em dois. Você pede uma música e ele devolve duas versões, A e B, pra você escolher qual fica — é A/B test embutido, eles aprendem com a que você prefere. O problema é que eu quase nunca consigo decidir. A voz da A é melhor, mas a B tem aquele erro bonito no refrão; a A acerta o andamento, mas a B tem mais cara de coisa-errada-do-jeito-certo. Aí publico as duas. Metade das duplicatas que aparecem na lista é isso: A/B test fossilizado, a indecisão virada arquivo. E tem uma coisa nisso — a indecisão só é barata porque gerar é barato. Num mundo onde gravar custa fita e estúdio, escolher entre A e B não é luxo, é obrigação. Aqui escolher é que dá trabalho; publicar as duas é o caminho de menor esforço. A curadoria deixou de ser triagem e virou acúmulo.

Drake recusando 'escolher entre A e B'; Drake aprovando 'publicar as duas e dormir'.

E o melhor é o quanto isso é fácil. Adaptar El Aleph pra moda-de-viola custa um prompt e dez minutos. Borges no cateretê, o ruliad em chamané, um LLM surtando em canção de ninar — tudo a um clique de distância, tudo barato a ponto do absurdo. Tem uma vertigem nisso, não vou mentir: se é tão fácil, o que sou eu nessa história? Mas eu resolvi a vertigem do lado da diversão. A facilidade não barateia a coisa — ela libera. Custa tão pouco que eu posso fazer exatamente o que não tem público, não escala, e só existe porque o contraste me faz rir. Ninguém vai gastar o tempo de gravar Carlos Argentino Daneri reclamando em cateretê. Eu gasto. É de graça e é meu. Já fiz música de aniversário pra gente que eu amo — não pra publicar, pra dar — porque é o presente mais improvável que existe e custa um prompt.

Não apaguei nenhuma das primeiras. O Riobaldo de fevereiro não tá errado — tá inacabado. Tinha a ideia (Aleph caipira), faltava a matéria, e faltava eu parar de querer que ela fosse importante. Levou nove meses. A ideia esperou. Boas ideias esperam.

Fico pensando se eu melhorei ou se foi o Suno. Os modelos ficaram melhores, a interface ficou melhor, o Claude que escreve as letras ficou melhor. Eu, parado no mesmo lugar. Aí entendi que a pergunta tá errada. A letra não é minha — eu jogo uma ideia e o Claude cospe os versos. O ritmo é sugerido. A voz é do modelo. O que é meu é o vai-e-vem: eu digo o que falta, ele tenta de novo, eu digo que ainda não, e uma hora desisto e publico. Eu não sou nenhuma das peças. Sou o laço entre elas — um strange loop, no sentido do Hofstadter: o processo que se dobra sobre si mesmo até virar um eu.

“Mas você só aperta o botão.” Sim. E daí? Apertar o botão é fácil. Saber quando parar de apertar, e parar pelo motivo certo, é a única coisa que a máquina não faz por mim. O editor que rejeita oitenta versões de uma frase e aceita a octogésima-primeira é autor da frase, mesmo sem ter escrito nenhuma das oitenta e uma. Crédito nunca foi pra quem gerou os tokens. Foi pra quem não ficou satisfeito com eles e uma hora parou. O laço já tinha meu nome antes de eu abrir o Suno. A ferramenta só deixou ele audível.

Eu não sei se isso é música. Sei que é slop. O catálogo inteiro — 92 faixas, com as letras e as que eu devia ter vergonha — tá aqui.

Tags: #suno #música #ia #auto-crítica #borges #experimentos

Read in English

Comentários

Comentários ainda não configurados.

↑ Top