Riobaldo e o Aleph
Letra
the crossroad is a point in space that does not move.
the devil did not appear, but all the space appeared.
drought-cracked earth on the nineteenth step.
a sphere of two or three centimeters.
i saw the sertão from every angle at once, without transparency.
i am not speaking.
i am being seen by the thing i am looking at.
the noise of the universe does not fit in the mouth.
so i tell the story until the story dissolves.
the Aleph is a hole in the real.
the pact was not a signature, it was an observation.
Notas do compositor
Cresci no interior de Rondônia, onde a Amazônia seca e vira cerrado. Foi lá que li Grande Sertão: Veredas. Riobaldo vai a uma encruzilhada à meia-noite fazer um pacto com o diabo. Ele chama, e nada aparece. A narrativa inteira de seiscentas páginas oscila porque ele nunca tem certeza se o diabo ignorou o chamado ou se o diabo era o próprio silêncio da encruzilhada.
O Aleph, no conto de Borges, é um ponto no porão de uma casa em Buenos Aires. Ele tem dois ou três centímetros de diâmetro. Quem olha para o Aleph vê o universo inteiro, todos os lugares de todos os ângulos ao mesmo tempo, sem sobreposição.
Riobaldo viu o sertão, e o sertão era grande demais para caber numa vida. Borges viu o Aleph, e a totalidade era grande demais para caber numa descrição. Juntar os dois não foi uma tentativa de resolver o problema da observação. Foi a constatação de que o observador é atravessado pela coisa que observa.
Pedi ao Suno um drone de didgeridoo, theremin e percussão tribal. A letra emergiu em inglês, num fluxo contínuo. “i am not seeing i am being seen.” Não há sujeito ativo quando o espaço não tem bordas. A música é o som de alguém tentando fechar os olhos e falhando.