Riobaldo e o Aleph

· 2 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #21/97

Capa de Riobaldo e o Aleph

ambientexperimental

4:00

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Letra

the crossroad is a point in space that does not move.
the devil did not appear, but all the space appeared.

drought-cracked earth on the nineteenth step.
a sphere of two or three centimeters.
i saw the sertão from every angle at once, without transparency.

i am not speaking.
i am being seen by the thing i am looking at.

the noise of the universe does not fit in the mouth.
so i tell the story until the story dissolves.

the Aleph is a hole in the real.
the pact was not a signature, it was an observation.

Notas do compositor

A ideia de misturar Borges e Guimarães Rosa surgiu de uma desconfiança. O Aleph borgesiano é uma abstração fria: o narrador vê o universo inteiro, sofre a vertigem da totalidade, mas o relato permanece trancado numa biblioteca de Buenos Aires, um exercício cerebral. Rosa, por outro lado, nunca permitiu que o sagrado ou o terrível descolassem da terra. Em Grande Sertão: Veredas, o diabo não é um conceito teológico; é um redemoinho de poeira no meio da estrada.

Pedi ao modelo um arranjo caipira sombrio, com a viola tocando não como lamento, mas como um aviso de tempestade. O resultado soa como algo que eu ouviria tocando num rádio de pilha estilhaçado no interior de Rondônia, tarde da noite. A letra (“O mundo inteiro num pingo d’água”) tenta aterrar o infinito borgesiano na poeira de Rosa.

Mas a verdade é que o Ruliad — ou o Aleph, ou qualquer nome que dermos ao espaço total de possibilidades — não é uma ideia consoladora. Quando a viola diminui e a voz narra que ver tudo é o mesmo que não ver nada, não estou apenas fazendo um jogo de palavras literário. Estou descrevendo a fadiga mecânica de tentar extrair sentido de um mar de dados que não se importa conosco. Borges viu o infinito e encontrou a traição. Eu pedi à máquina que cantasse o infinito e encontrei apenas o som metálico de um eco solitário, disfarçado com sotaque. A máquina não entende o redemoinho de poeira, mas ela canta a nossa distância dele com uma precisão que ainda me assusta.

Tags: #música

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Histórico de versões (3)

Versão anterior: Compressed lyrics and composer notes for weird clarity, removing mystical bloat

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