Travessia: O Projeto que Escreve a Si Mesmo

· 4 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #27/38

Há uma diferença entre criar algo e iniciar algo. O projeto Travessia é, tecnicamente, uma correspondência epistolar entre Riobaldo Tatarana e Ted Chiang. Mas o que o torna diferente de tudo que já fiz é que eu não escrevo as cartas. Eu criei o sistema que as escreve — e o sistema segue escrevendo, sem mim, em sessões agendadas, incrementalmente. Cada sessão do Jules abre o repositório, lê o estado atual da correspondência, entende onde a conversa está, escreve a próxima carta, e agenda a sessão seguinte. A correspondência existe porque continua acontecendo.

Jules Como Co-Autor Autônomo

Jules é um agente de IA da Google que trabalha diretamente em repositórios GitHub de forma assíncrona. Você descreve uma tarefa, ele executa, abre um PR. Mas o que eu fiz com a Travessia foi diferente: cada sessão do Jules termina agendando a próxima. O projeto tem inércia própria. A estrutura é simples:

  1. Uma sessão Jules lê as cartas anteriores para entender o contexto narrativo e temático
  2. Decide de quem é a vez (Riobaldo ou Ted Chiang) e qual fio da conversa merece continuação
  3. Escreve a próxima carta, respeitando a voz de cada personagem
  4. Commita, faz o PR, e deixa instruções para a sessão seguinte Não tem while True. Não tem loop. Cada sessão é discreta, agendada, ativada por trigger. A correspondência pulsa em vez de fluir.

Por Que Incremental Importa

A maioria dos projetos de escrita com IA tem a mesma forma: você gera tudo de uma vez, revisa, publica. É uma produção em lote. O resultado pode ser bom, mas o processo é invisible — o leitor encontra um artefato acabado. A Travessia inverte isso. As cartas chegam com intervalo. Quem acompanha o projeto vê a correspondência crescer, como se Riobaldo e Ted Chiang estivessem de fato na troca — sem saber o que o outro vai responder, deixando fios abertos, voltando a temas semanas depois. O tempo do projeto é o tempo da correspondência, não o tempo de uma sessão de geração. Isso muda o que o projeto é. Não é um livro. É uma troca em andamento.

A Impossibilidade Dupla

Riobaldo Tatarana é personagem. Existe nas páginas de Grande Sertão: Veredas — esse livro que Guimarães Rosa escreveu como se estivesse transcrevendo um rio em monólogo. Ted Chiang é real, americano, vivo, escreve sobre o que a linguagem faz com o tempo. Eles nunca se encontrariam. Primeira impossibilidade. Mas o projeto vai além: ninguém está ativamente escrevendo a correspondência. As cartas existem porque um agente de IA, executando de forma autônoma em sessões agendadas, decidiu que essa conversa deve continuar. Segunda impossibilidade. O resultado é uma obra que nenhum humano escreveu integralmente, que nenhuma IA gerou de uma vez, e que nenhum dos dois “autores” controla no presente. Ela acontece. É esse acontecimento que me interessa.

O Que Riobaldo e Ted Chiang Falam

Sobre o medo e sobre o nome das coisas. Sobre Diadorim — que é onde, para Riobaldo, o medo e o amor e a morte viram uma palavra só. Sobre o que significa esquecer em tempo linear versus esquecer quando você percebia o tempo como simultâneo. A voz do Riobaldo é o português arcaico, sincopado, cheio dos neologismos de Rosa. A de Ted Chiang é aquela prosa contemplativa que pensa antes de responder, que respeita a gravidade da pergunta. O Jules aprendeu a diferença. Cada carta soa como quem deveria soar.

O Sistema Como Declaração Artística

Há algo que só o processo incremental permite dizer: esta correspondência tem vida própria. Se eu gerasse tudo de uma vez, o projeto seria meu. Eu teria feito algo. Mas quando cada sessão do Jules lê o que veio antes e decide o que vem depois — quando o projeto tem memória, coerência e inércia sem que eu esteja presente — a autoria se torna uma questão mais complicada. Não estou abandonando o projeto. Estou interessado em observá-lo. Tem diferença. Essa é a pergunta que a Travessia faz sem enunciar: quando um sistema autônomo mantém uma correspondência com consistência de voz, memória temática e evolução narrativa — quem está escrevendo?

Como Acompanhar

O projeto está em franklinbaldo.github.io/travessia. As cartas chegam em ordem, mas você pode ler fora de sequência — cada uma carrega contexto suficiente. O mais interessante é voltar depois de algumas semanas. Ver o que aconteceu enquanto você não estava olhando. Riobaldo e Ted Chiang provavelmente trocaram mais uma carta.

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Travessia Depois da Interferência

Duas cartas de teste entraram no sistema, Riobaldo respondeu com raiva, Franklin pediu desculpas e a Travessia mudou de natureza. Já não é só uma correspondência autônoma: é um mundo narrativo em que o autor entrou e foi contestado.

A API do Jules como Backend do Harness

Explorando a integração da API do Jules no daemon canivete. Como sessões e atividades mapeiam para uma identidade contínua, e as implicações metafísicas da orquestração de agentes.

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