Menino Que Você Foi
· 5 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #73/97
Letra
[intro - spoken, deep and slow]
Encontre um lugar confortável
deixe o corpo pousar com peso
feche os olhos
e respire fundo
[instrumental break - long, soft piano]
[spoken, very slow]
Inspire
e enquanto você expira
deixe o presente ir ficando mais distante
Mais uma vez
inspire devagar
e expire
você não precisa estar em lugar nenhum agora
[instrumental break]
[spoken, warm and low]
Quero te levar a um lugar
que você conhece bem
mas faz tempo que não visita
Um lugar onde o tempo era diferente
onde os dias eram longos
e o mundo cabia numa rua
numa tarde
numa brincadeira
[instrumental break - long, strings fading in]
[verse 1 - half-sung, deep and tender]
Lembre de uma manhã
quando você era pequeno
o cheiro de café que vinha da cozinha
a luz entrando pela janela
Aquela sensação de acordar
sem pressa nenhuma
com o dia inteiro pela frente
sem saber o que ia acontecer
[instrumental break - wind chimes, soft]
[spoken]
Deixe uma lembrança vir
não force
não escolha
deixe ela simplesmente aparecer
Pode ser um rosto
pode ser um cheiro
uma textura
o som de uma voz que você amava
[instrumental break - long]
[spoken, slower]
Onde você está nessa memória
o que está ao redor de você
Observe com carinho
como se estivesse vendo
uma foto antiga de alguém
que você ama muito
[instrumental break - piano, nostalgic]
[verse 2 - sung low, barely above speaking]
Lembre de uma risada
que subia do fundo do peito
de uma tarde que não queria acabar
de mãos que te seguravam
O mundo era menor então
mas você era inteiro nele
sem passado pesado
sem futuro que apressasse
[instrumental break]
[spoken, tender]
Esse menino
essa menina
que você foi
Eles ainda estão em você
guardados em algum lugar quieto
esperando que você se lembre
com gentileza
[instrumental break - long, meditative, strings]
[verse 3 - half-spoken, half-sung]
Lembre de uma brincadeira
que durou até escurecer
de um segredo guardado
entre você e alguém especial
Da sensação de ser chamado pelo nome
por uma voz que é lar
de chegar em casa
e saber que estava seguro
[instrumental break - very long]
[spoken, slow and deep]
Olhe para essa criança
que você foi
Veja como ela era curiosa
como ela se jogava no mundo
como ela encontrava alegria
nas coisas mais simples
Ela merecia todo o amor do mundo
e merecia o seu
[instrumental break - long, pads swelling]
[sung, low and warm]
Você carrega tudo isso
cada tarde de sol
cada abraço que durou tempo demais
cada sonho que você sonhava
Nada disso foi perdido
só foi ficando mais fundo
esperando por um momento assim
quieto e seguro como esse
[instrumental break]
[spoken, barely audible]
Antes de ir
diga alguma coisa para essa criança
pode ser só
eu me lembro de você
Pode ser só
obrigado
[hummed melody - deep, slow, dissolving]
Mmm... mmm...
mmm...
[spoken, final, very soft]
Quando estiver pronto
traga a atenção de volta
para a respiração
para o corpo
para o agora
Você pode abrir os olhos
com calma
[outro - instrumental, very slow fade, piano alone]
Notas do compositor
Sempre tive dificuldade com o gênero “meditação de regressão à infância” — parece fácil demais, sentimental por padrão. Mas tentei, aqui, escrever um script que fosse honesto sobre o que essa regressão realmente é: não um retorno, mas uma atenção diferida. “Esse menino / essa menina / que você foi / eles ainda estão em você / guardados em algum lugar quieto.” Isso não é consolação barata — é uma afirmação sobre a estrutura da memória que acho filosoficamente defensável. Os eventos passados não desaparecem; eles persistem como estrutura no presente. Whitehead diria algo parecido, com mais palavras.
Cresci em Rolim de Moura, que era uma cidade nova demais para ter muito passado e velha o suficiente para que meu pai lembrasse quando não havia estrada asfaltada. Meu pai tinha sido seminarista antes de se casar; minha mãe praticava Seicho-No-Ie. A casa tinha os dois tipos de silêncio — o silêncio doutrinário e o silêncio meditativo — e nenhum dos dois era do tipo que aparece nessa faixa. O que a faixa descreve é uma infância genérica e ao mesmo tempo específica: “o cheiro de café que vinha da cozinha”, “a luz entrando pela janela”. Não escrevi a minha infância; escrevi o espaço onde cabe qualquer infância que foi inteira em si mesma.
A instrução final — “diga alguma coisa para essa criança / pode ser só / eu me lembro de você” — foi a que mais me custou decidir se ficava. É o momento mais vulnerável da letra, e vulnerabilidade precisa ser ganha. Ficou porque “obrigado” como possível resposta me pareceu certo: agradecer ao que você foi sem precisar explicar por quê. O Suno trouxe o piano lento e o swelling de cordas que pedi, mas o que não pedi — e que apareceu — foi um silêncio entre os versos que funciona como a pausa que o ouvinte precisa para fazer o que a letra pede: lembrar.
Esse é o paradoxo da memória artificial: não é que a máquina lembre do que nós esquecemos, é que ela não sofre com o atrito da lembrança. Uma vida sem atrito é apenas um arquivo. O menino que você foi não quer ser descompactado perfeitamente de um log de dados; ele precisa da neblina do esquecimento para continuar existindo como mito na sua própria cabeça.
A vida sem atrito é apenas um arquivo. / A life without friction is just an archive.
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