
Letra
Na candente manhã de fevereiro em que ela partiu,
Sob uma agonia imperiosa que ao sentimentalismo não cedeu,
Observei que os painéis de ferro na Praça Constitución
Exibiam um novo anúncio, um cigarro que ninguém conheceu.
O fato me desgostou com uma tristeza profunda e vasta,
Pois compreendi que o incessante universo já dela se afastava.
Esta mudança era apenas a primeira de uma série infinita –
O mundo, indiferente à minha dor, continuava.
"Mudará o universo, mas eu não", pensei com melancólica vaidade,
A eternidade do meu luto contra a voraz impermanência.
Beatriz Viterbo, teu nome agora é uma constelação de ausências,
O tempo tudo transforma, mas minha devoção será permanência.
Sei que minha obstinada adoração a exasperava em vida,
Mas morta, posso consagrar-me à sua memória sem restrição.
Sem esperança, sim, mas também livre de humilhação –
Uma devoção sem objeto é a mais pura forma de devoção.
No círculo perfeito das horas, o mundo prossegue seu caminho,
Cartazes mudam, rostos transformam-se, a cidade respira sem ela.
Enquanto isso, eu permaneço — guardião de um passado imutável,
Preservando cada fragmento do que foi Beatriz, intocada e bela.
O universo está repleto de mudanças que a ninguém perdoam,
Os anúncios de hoje substituem sem remorso os de ontem.
Mas neste ponto fixo do espaço, eu resisto ao fluxo do tempo,
Um homem imóvel contemplando o abismo que todos os abismos contém.
Cada ano, no trinta de abril, visitarei a casa na Rua Garay,
Estudarei seus retratos com a precisão de um cartógrafo de sonhos.
Beatriz de perfil, Beatriz mascarada no carnaval de seus vinte anos,
Beatriz em fragmentos dispersos que apenas minha memória compõe.
Na geometria impossível do tempo, construo um monumento:
Um homem que se recusa a mudar num universo em constante mutação.
Os painéis renovados da praça são o primeiro testemunho
De que o mundo já começa a esquecê-la — mas eu não, eu não.
"Mudará o universo mas eu não", esta é minha secreta vingança
Contra o tempo que a levou, contra o esquecimento que nos consome.
Enquanto tudo se transforma, serei a estátua da constância,
Um Atlas invertido carregando não o mundo, mas sua ausência enorme.Você também pode gostar
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