
Letra
Pois bem, senhor… Chegue mais.
Encontre seu canto: cadeira, chão firme, sombra de juazeiro depois da caminhada longa.
Quando sentir, feche os olhos — ou só baixe a vista, que aqui ninguém manda em ninguém.
É só convite.
Sinta o contato: peso nos quadris, planta dos pés na terra batida, fresca da chuva mansa.
Deixe o corpo repousar, como mala largada no alpendre.
Agora, preste atenção no sopro que sustenta tudo.
O ar chega, fresquinho, beirando a narina; sai um tantinho morno, levando o cansaço.
Se o fôlego engasgar, volte devagar — não há pressa.
Pensamento vem?
Deixe que venha.
Recordação boa, temor sem nome, poeira levantada de chapadão.
Olhe essas nuvens: uma vira carneirinho, outra some atrás do morro.
Não são você; apenas passam.
Quando notar que se perdeu na conversa da mente, puxe a rédea como quem chama cavalo manso e volte para o ar entrando, saindo, sempre.
Talvez repare num formigamento na perna, numa coceira no rosto, no zunir de uma cigarra distante.
Note apenas; não julgue.
São sinais de que está vivo — vida miúda se exibindo.
Viver é muito perigoso, já contaram.
Sossegar também tem suas manhas.
Ainda assim, nesse mirar sem briga, quem sabe você ache um poço de quietude: água funda pra seguir viagem.
Fique mais um tiquinho.
Respire.
Seja.
Quando o tempo lhe chamar, sinta o corpo inteiro assentado; mexa dedos, espreguice.
Abra os olhos devagar.
Deixe as cores lhe saudarem, como se vistas depois de seca longa.
Leve no peito esse fiapo de silêncio.
Que lhe sirva de cantil na travessia.
Vá em paz.
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