
Letra
[Verse 1]
Na candente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu,
Depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante
Ao sentimentalismo ou ao medo, observei que os painéis de ferro
Da Praça Constituição haviam renovado algum anúncio de cigarros—
O fato me desgostou, pois compreendi que o vasto e incessante universo
Já se afastava dela, e essa mudança era a primeira
De uma série infinita.
[Verse 2]
O universo mudará, mas eu não, pensei com melancólica vaidade;
Sei que minha vã devoção outrora a exasperara;
Morta, eu podia consagrar-me à sua memória,
Sem esperança, mas também sem humilhação.
Considerei que em 30 de abril era seu aniversário;
Visitar a casa da rua Garay nesse dia,
Para saudar seu pai e o primo-irmão Carlos Argentino Daneri—
Um ato cortês, irrepreensível, talvez inevitável.
[Chorus]
De novo, eu esperaria no crepúsculo da salinha abarrotada,
Estudaria mais uma vez as circunstâncias de seus muitos retratos:
Beatriz Viterbo de perfil, em cores vivas;
Beatriz com máscara no carnaval de 1921;
A primeira comunhão de Beatriz, pura e solene;
Beatriz no dia de seu casamento com Roberto Alessandra;
[Verse 3]
Beatriz logo após o divórcio, num almoço do Clube Hípico;
Beatriz em Quilmes com Delia San Marco Porcel e Carlos Argentino;
Beatriz com o pequinês dado por Villegas Haedo;
Beatriz de frente e em três quartos de perfil, sorrindo,
Mão no queixo, eterna naquele olhar...
Não mais obrigado a justificar minha presença
Com oferendas modestas de livros—páginas que finalmente aprendi a cortar,
Para não comprovar, meses depois, que permaneciam intocadas.Você também pode gostar
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