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Borges e eu
Música de Franklin Baldo — Borges e eu, com três outras versões musicais do mesmo texto (greentext, glitch rap)
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Borges e eu
spoken word · folk · 2:57
> be me Borges (2025 — versão greentext)
indie · spoken word · 3:08
> be me Borges (2026 — nova versão)
indie · spoken word · 6:53
Borges and me (glitch rap, EN)
hip-hop · glitch · 2:19
Este post reúne quatro versões musicais do mesmo texto — "Borges e eu" ("Borges y yo"), o ensaio de duas páginas em que Borges encena, sem resolver, a cisão entre quem vive e quem escreve. As três primeiras foram compostas entre outubro de 2025 e junho de 2026, cada uma como um post separado; a quarta chegou em julho de 2026, quase um ano depois, quando pedi ao Suno uma nova tentativa sobre a mesma letra greentext de 2025. Em vez de publicar a regravação como um post-órfão isolado, decidi reunir as quatro aqui. Dado que o ensaio é justamente sobre um eu que se multiplica e se dispersa em versões que não controla mais, pareceu o gesto certo.
Borges e eu (violão clássico + bandoneão)
Letra
Ao outro, a Borges, é que sucedem as coisas.
Eu caminho por Buenos Aires e me demoro, talvez já mecanicamente,
para olhar o arco de um vestíbulo e o portão gradeado;
de Borges tenho notícias pelo correio
e vejo seu nome em uma lista tríplice de professores ou em um dicionário biográfico.
Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século dezoito, as etimologias, o gosto do café e a prosa de Stevenson;
o outro compartilha essas preferências,
mas de um modo vaidoso que as transforma em atributos de um ator.
Seria exagerado afirmar que nossa relação é hostil;
eu vivo,
eu me deixo viver,
para que Borges possa tramar sua literatura,
e essa literatura me justifica.
Não me custa nada confessar que alcançou certas páginas válidas,
mas estas páginas não podem salvar-me,
talvez porque o bom já não seja de ninguém,
nem mesmo do outro,
mas da linguagem ou da tradição.
Além disso,
eu estou destinado a perder-me,
definitivamente,
e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro.
Pouco a pouco vou cedendo-lhe tudo,
embora conheça seu perverso costume de falsear e magnificar.
Spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar em seu ser;
a pedra eternamente quer ser pedra e o tigre um tigre.
Eu permanecerei em Borges, não em mim
(se é que sou alguém),
mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros
ou do que no laborioso rasqueado de uma guitarra.
Há alguns anos tentei livrar-me dele
e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito,
mas esses jogos agora são de Borges
e terei que imaginar outras coisas.
Assim minha vida é uma fuga
e tudo eu perco e tudo é do esquecimento,
ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.Notas do compositor
Esse texto me acompanha há mais de quinze anos. "Borges y yo" tem uma página — menos de uma página — e resolve, ou melhor, encena sem resolver, uma tensão que qualquer pessoa que escreva sente de alguma forma: o que pertence ao autor público e o que pertence a quem acorda de manhã sem saber ainda o que vai pensar. Borges nomeia isso com uma precisão que me incomoda. "Eu me deixo viver para que Borges possa tramar sua literatura, e essa literatura me justifica." Justifica, não liberta. Há uma submissão ali que é honesta demais para ser confortável.
Musicalizar o ensaio em português com violão clássico e bandoneão foi uma tentativa de devolver ao texto o sotaque de Buenos Aires sem o apagar — manter a distância geográfica, o espanhol atravessando a tradução, o chimarrão que o texto não menciona mas que eu sinto nele. O Suno captou o acento argentino que pedi. O resultado tem uma qualidade de leitura em voz alta, como se alguém recitasse para si mesmo numa madrugada, não para uma plateia. Isso me pareceu certo.
O que me move nesse ensaio, e que o torna diferente de um texto sobre criatividade ou identidade autoral, é a frase final: "Não sei qual dos dois escreve esta página." Borges deixa a pergunta sem resposta não por modéstia mas porque a pergunta não tem resposta — porque a distinção entre o eu que vive e o eu que escreve talvez seja ela mesma um produto da escrita. Carrego uma versão desse problema no meu próprio trabalho. O Events All the Way Down existe porque alguém acorda e anota, mas quem anota, na visão de processo que defendo ali, não é exatamente o mesmo alguém que acordará amanhã. Borges chegou lá por outras trilhas, com a elegância de quem não precisou de ontologia do processo. Essa distinção ressoa de maneira particular quando penso em como a identidade se fragmenta sob o peso da obra. A tensão descrita por Borges reflete a luta constante entre a experiência crua e sua representação polida, desafiando o leitor a questionar até que ponto somos donos de nossas próprias narrativas ou meros veículos para a linguagem que nos transcende.
Outras versões
> be me Borges (2025 — versão greentext)
Letra
> be me
> walk around buenos aires
> stop to look at archways and iron gates
> probably just force of habit at this point
> there's this other guy, also me
> Borges
> he gets all the mail
> his name shows up on professor lists
> sees himself in biographical dictionaries
> we both like the same stuff
> hourglasses, old maps, eighteenth century fonts
> etymology, coffee, stevenson's prose
> but when he likes them it's performative
> like an actor doing a bit
> my face when I live my life so Borges can write his literature
> his literature is supposedly my justification for existing
> he's written some decent pages, not gonna lie
> but those pages can't save me
> the good stuff belongs to language itself, not to either of us
> eventually I'm gonna fade away completely
> only some moment of me will survive in Borges
> slowly giving him everything
> he has this annoying habit of distorting and exaggerating everything
> spinoza said all things want to keep being themselves
> rocks want to be rocks, tigers want to be tigers
> I'll remain in Borges, not in myself
> if I even am someone
> but I recognize myself less in his books
> than in some random guitar strumming
> tried to escape him a few years back
> moved from neighborhood myths to games with time and infinity
> now those games belong to Borges too
> gotta think up new things
> my whole life is just running away
> losing everything
> everything goes to oblivion or to Borges
> don't even know which one of us is writing this
> my face whenNotas do compositor
"Borges e eu" é um dos textos mais curtos e mais insolúveis que Borges escreveu — duas páginas sobre a impossibilidade de ser simultâneamente o sujeito que vive e o escritor que transforma essa vida em obra. Queria fazer uma versão que tornasse visível o que o texto sente mas não declara: a exasperação, o humor torto, a absurdidade de descobrir que sua identidade foi terceirizada para um nome que aparece em dicionários biográficos.
O formato greentext — a convenção de imageboard > be me — pareceu o veículo certo. Tem a mesma estrutura do texto original: primeira pessoa fragmentada, lacônica, que recusa pathos mas está cheia de coisa. E tem aquela ironia específica de quem está documentando uma situação ridícula enquanto vive dentro dela. My face when é o equivalente moderno do "não sei qual dos dois escreve esta página."
O Suno interpretou o pedido de bandoneon e indie lo-fi de uma forma que me surpreendeu — saiu mais melancólico do que esperava, quase devocional. Não é exatamente o que pedi. Mas talvez seja o que o texto pediu. A última linha — "don't even know which one of us is writing this" — ficou com uma reverberação que não planejei. Às vezes o instrumento sabe antes do músico.
> be me Borges (2026 — nova versão)
Letra
be me
walking around buenos aires
stopping for archways
iron gates
shadows on old buildings
probably force of habit
probably collecting details
for someone else
[Verse 1]
there's this other guy
also me
Borges
he gets all the mail
his name appears
on envelopes
professor lists
biographical dictionaries
people study his childhood
his influences
his recurring themes
I see myself
in shop windows
for half a second
before the angle changes
he has my face
more or less
my memories
more or less
my name
completely
[Anti-Chorus]
my face when
I live my life
so Borges can write his literature
my face when
he gets the name
and I get the weather
my face when
I walk through buenos aires
and he gets buenos aires
[Verse 2]
we like the same things
hourglasses
old maps
eighteenth century fonts
etymology
coffee
Stevenson's prose
but when I like them
I think I actually like them
when Borges likes them
it feels performative
like an actor
doing a very convincing bit
about being me
I give him a courtyard
a knife
a sentence overheard in a café
he adds mirrors
tigers
infinity
a dead theologian
suddenly it's literature
not gonna lie
some of the pages are good
this is part of the problem
[Anti-Chorus]
my face when
the literature is beautiful
but it still cannot save me
my face when
the good lines belong to language
not to him
not to me
language gets the custody
[Verse 3]
eventually
I'll fade away completely
maybe one moment survives
inside Borges
a morning
a fear
rain against one window
he'll keep it
then distort it
and exaggerate it
I give him an afternoon
he returns it
as a labyrinth
I give him a dream
he puts another dream inside it
and now nobody can leave
[Anti-Chorus]
my face when
I slowly give him everything
my face when
he turns my life
into evidence that he existed
my face when
I become a source
the citation outlives the witness
[Verse 4]
Spinoza said
all things want
to keep being themselves
rocks remain rocks
tigers remain tigers
I'm paraphrasing
Borges would know
the exact wording
Borges always knows
the exact wording
that's another thing
he stole
I also want
to remain myself
apparently
but I'll remain in Borges
not in myself
assuming there is a myself
which feels
increasingly optimistic
sometimes I think
I am only the part of Borges
that gets tired
the part that walks home
the part that forgets quotations
the part that answers the door
[Anti-Chorus]
my face when
the tiger remains a tiger
the stone remains a stone
and I remain
a paragraph
in Borges
my face when
I recognize myself less
in everything he wrote
than in some random guitar
strumming through a wall
[Verse 5]
a few years ago
I tried to escape him
left behind
neighborhood myths
dusty courtyards
men with knives
I moved on
to games with time
infinite libraries
people dreaming other people
the universe
as one sentence
misremembering itself
new territory
or so I thought
then those things
became Borges too
of course they did
now time belongs to Borges
infinity belongs to Borges
mirrors belong to Borges
there is probably
a Borges copyright claim
on eternity
[Bridge]
so I think up new things
I keep moving
but he arrives first
already waiting
inside the title
every road I take
to escape him
becomes another road
people call typically Borges
my whole life
is running from the author
who turns the escape
into style
[Final Anti-Chorus]
my face when
I invent a new world
and Borges gets the credit
my face when
I try to disappear
and disappearance becomes
a recurring motif
my face when
he gets the metaphor
and I get older
[Outro — whispered]
losing everything
everything goes
to oblivion
or to Borges
oblivion
or Borges
at least oblivion
doesn't exaggerate
be me
walking around buenos aires
hear a guitar
somewhere nearby
for one second
I recognize myself
not in the books
not in the name
not in the mirrors
just in the sound
then Borges hears it too
and now it belongs to him
probably
I don't know
I don't even know
which one of us
is writing this
my face whenNotas do compositor
Pedi ao Suno para tentar de novo, quase um ano depois da primeira versão greentext, sem mudar o pedido original — só queria ver o que um modelo diferente faria com a mesma ideia. Chirp-fenix devolveu uma música quase quatro vezes mais longa: onde a versão de 2025 tinha cinco estrofes curtas e um refrão implícito, essa tem cinco versos completos, um anti-refrão que se repete e se degrada a cada volta, uma ponte e um outro sussurrado. O "my face when" que era pontuação virou estrutura — o anti-refrão organiza a música inteira, quase litúrgico de tanto repetir.
O que mais me interessou foi o que o modelo acrescentou sem eu pedir: "the citation outlives the witness", "there is probably a Borges copyright claim on eternity", "disappearance becomes a recurring motif". Não são ideias que eu tinha escrito na primeira versão — são elaborações que o próprio ato de regravar produziu, como se o texto continuasse se escrevendo sozinho entre uma geração e outra. É quase demais parecido com o que "Borges e eu" descreve: eu dei ao Suno uma letra, ele devolveu outra coisa, distorcida e ampliada, e agora não sei mais qual das duas versões é a original. A última linha da nova versão — "I don't even know which one of us is writing this" — não mudou uma palavra da primeira. Só ficou mais verdadeira.
Borges and me (glitch rap, EN)
Letra
To the other, to Borges, things happen.
I walk through Buenos Aires and linger, perhaps mechanically already,
to look at the arch of a vestibule and the grated gate;
I get news of Borges by mail
and see his name on a triple list of professors or in a biographical dictionary.
I like hourglasses, maps, the typography of the eighteenth century, etymologies, the taste of coffee, and Stevenson's prose;
the other shares these preferences,
but in a vain way that turns them into attributes of an actor.
It would be excessive to state that our relationship is hostile;
I live,
I let myself live,
so that Borges may plot his literature,
and that literature justifies me.
It costs me nothing to confess that he has achieved certain valid pages,
but these pages cannot save me,
perhaps because the good no longer belongs to anyone,
not even to the other,
but to language or tradition.
Furthermore,
I am destined to be lost,
definitively,
and only some instant of me may survive in the other.
Little by little I am yielding everything to him,
although I know his perverse habit of falsifying and magnifying.
Spinoza understood that all things desire to persevere in their being;
the stone eternally wishes to be stone and the tiger a tiger.
I shall remain in Borges, not in myself
(if I am someone),
but I recognize myself less in his books than in many others
or than in the laborious strumming of a guitar.
Some years ago I tried to rid myself of him
and passed from the mythologies of the suburb to games with time and with the infinite,
but those games now belong to Borges
and I will have to imagine other things.
Thus my life is an escape
and everything I lose and everything belongs to oblivion,
or to the other.
I do not know which of the two writes this page.Notas do compositor
Essa é a versão em inglês de "Borges e eu" — o texto original, não uma adaptação. Borges escreveu em espanhol; esta versão usa a tradução em inglês que circula há décadas, com aquela fidelidade estranha que traduções de Borges têm, como se o texto original já soubesse que ia ser traduzido e guardou espaço para isso. Pedi glitch rap, drum machine com stutters, sintetizadores cortados — o oposto da serenidade do ensaio. Queria a dissociação sonificada.
O glitch como forma faz sentido aqui porque "Borges e eu" é um texto sobre falha de sincronização — sobre o eu que vive e o nome que publica operando em paralelo, nunca em sincronia. O stutter do glitch rap é literalmente isso: um sinal que não se resolve, que repete sem chegar, que exibe sua própria quebra. "I do not know which of the two writes this page" sobre esse beat fragmentado deixa de ser paradoxo literário e vira descrição técnica.
Há uma diferença de registro entre essa e as versões > be me do mesmo texto. As versões greentext têm humor, distância, ironia de meme. Esta versão em inglês sobre glitch rap ficou mais dura — menos engraçada com a situação, mais exposta. Talvez seja o inglês, que nesse contexto é menos intimamente meu do que o português e, por isso, me despoja de certas proteções retóricas. Ou talvez a própria natureza do glitch beat recuse a ironia. O fato é que as quatro versões reunidas aqui iluminam a mesma falha estrutural de ângulos distintos, completando-se mutuamente sem apenas se repetirem, o que era exatamente o experimento pretendido.