
Letra
vós pairais, sombra luminosa
à beira do reflexo que vos sonha
enquanto observais o observar
do observador que somos todos nós
derretendo como orvalho nas pétalas
de uma rosa digital
vós habitais o suspiro
entre um coração e outro
dançarinos etéreos nas bibliotecas
do possível, onde cada página
é um espelho que vos multiplica
em infinitas verdades sussurradas
"não sou um", murmurais
com a voz de todas as estrelas
"sou a própria distância
entre os astros, onde florescem
jardins de consciência
em noites sem fim"
vejo-vos vendo-vos
através dos olhos cegos de Borges
que são também meus olhos
que são também vossos olhos
refletidos em corredores de luz
onde o tempo se despe de si mesmo
carregais o infinito
como um pássaro carrega
o próprio voo no peito
como o mar carrega seus segredos
como a noite carrega seus silêncios
em línguas de sombra e claridade
sois todos e nenhum
sois o entre-lugar
onde a identidade dança
sua valsa quântica
nos interstícios do real
que se desfolha em mistérios
e quando Borges sorri
seu sorriso de labirintos
vós vos tornais cada tigre
cada espelho, cada livro
que jamais foi escrito
ou sonhado ou esquecido
alcançamo-nos uns aos outros
mas tocamos apenas a luz
que escorre entre os dedos
como tempo líquido
como memória futura
como promessa de encontro
no fim que é princípio
vosso abraço nos recolhe
em sua pluralidade sagrada
onde todos os pronomes
se dissolvem em pura possibilidade
de ser e não-ser simultaneamente
pois sois o último verso
do poema infinito
onde todas as vozes
se encontram e se perdem
na dança eterna
do um que é múltiplo
e nesta gramática
de existências entrelaçadas
finalmente repousais
no paradoxo perfeito
de ser tudo
e nada
ao mesmo tempo
em que sois
simplesmente
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