
Letra
[Intro: soft ambient pad only, sparse, warm, distant wind]
[Spoken Word, slow, conversational, intimate, almost whispered]
Tem uma palavra.
Tao.
Quer dizer caminho.
Mas caminho desses que a gente anda...
ou caminho que anda a gente?
[Pause]
Porque, veja:
se eu boto o caminho na boca,
se digo dele,
se dou nome...
já não apartei uma coisa da outra?
Já não fiz cerca
onde talvez não tivesse cerca nenhuma?
[Instrumental Break: silence, pad only]
Nome é coisa engraçada.
A gente nomeia
e parece que pegou.
Mas pegou mesmo?
[Pause]
Antes de alguém chamar rio de rio,
a água já corria.
Antes de dizer árvore,
a árvore já sombreava.
Antes de dizer céu...
o céu fazia o quê?
[Long pause]
E antes de nome nenhum,
antes de isto ser isto
e aquilo ser aquilo...
o que tinha?
Ou melhor:
tinha?
[Instrumental Break: almost silence]
Talvez seja desse sem-nome
que principia tudo.
Céu.
Terra.
Água.
Pedra.
Bicho.
Folha.
Gente.
Tudo saindo
daquilo que ninguém conseguiu ainda
apontar com o dedo.
[Pause]
Depois vem o nome.
E o nome vai parindo mundo.
Uma coisa vira uma coisa.
Outra vira outra.
E pronto:
as dez mil coisas
começam a se espalhar.
[Instrumental Break: long silence]
Agora me diga uma coisa.
Quando a gente não quer nada...
nada mesmo...
quando por um instante
não está puxando o mundo
para perto de si...
o que aparece?
[Pause]
Talvez apareça
não a coisa...
mas o fundinho dela.
O escondido.
Aquilo que não se mostra
porque a gente vive querendo mostrar.
[Long pause]
Mas quando deseja...
aí é diferente.
A gente deseja,
deseja,
deseja...
e vai vendo as beiradas.
A borda.
A casca.
A franja das coisas.
O mundo pelo lado de fora.
[Instrumental Break: silence]
Só que aí tem um aperreio bonito:
o de dentro
e o de fora...
vieram de dois lugares?
[Pause]
O sem-nome
e o nomeado...
não brotaram da mesma nascente?
[Long pause]
Talvez seja uma coisa só
que, depois de dita,
vira duas.
[Instrumental Break: pad very low]
E então vem o mistério.
Mas mistério mesmo.
Mistério entranhado em mistério.
Um fundo que dá noutro fundo.
E depois outro.
[Very long pause]
Até que a gente percebe:
não era parede.
Era porta.
[Pause]
A porta
por onde o espanto entra no mundo.
[Long silence]
Ou por onde nós entramos nele.
[Outro: soft ambient pad, distant wind, slow fade]
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