Capa de O Sem-Nome

Canção

O Sem-Nome

Música de Franklin Baldo — O Sem-Nome

Abrir no Suno ↗

Letra

[Intro: soft ambient pad only, sparse, warm, distant wind]

[Spoken Word, slow, conversational, intimate, almost whispered]

Tem uma palavra.

Tao.

Quer dizer caminho.
Mas caminho desses que a gente anda...
ou caminho que anda a gente?

[Pause]

Porque, veja:

se eu boto o caminho na boca,
se digo dele,
se dou nome...

já não apartei uma coisa da outra?

Já não fiz cerca
onde talvez não tivesse cerca nenhuma?

[Instrumental Break: silence, pad only]

Nome é coisa engraçada.

A gente nomeia
e parece que pegou.

Mas pegou mesmo?

[Pause]

Antes de alguém chamar rio de rio,
a água já corria.

Antes de dizer árvore,
a árvore já sombreava.

Antes de dizer céu...
o céu fazia o quê?

[Long pause]

E antes de nome nenhum,
antes de isto ser isto
e aquilo ser aquilo...
o que tinha?

Ou melhor:

tinha?

[Instrumental Break: almost silence]

Talvez seja desse sem-nome
que principia tudo.

Céu.
Terra.
Água.
Pedra.
Bicho.
Folha.
Gente.

Tudo saindo
daquilo que ninguém conseguiu ainda
apontar com o dedo.

[Pause]

Depois vem o nome.

E o nome vai parindo mundo.

Uma coisa vira uma coisa.
Outra vira outra.

E pronto:

as dez mil coisas
começam a se espalhar.

[Instrumental Break: long silence]

Agora me diga uma coisa.

Quando a gente não quer nada...
nada mesmo...

quando por um instante
não está puxando o mundo
para perto de si...

o que aparece?

[Pause]

Talvez apareça
não a coisa...

mas o fundinho dela.

O escondido.

Aquilo que não se mostra
porque a gente vive querendo mostrar.

[Long pause]

Mas quando deseja...
aí é diferente.

A gente deseja,
deseja,
deseja...

e vai vendo as beiradas.

A borda.

A casca.

A franja das coisas.

O mundo pelo lado de fora.

[Instrumental Break: silence]

Só que aí tem um aperreio bonito:

o de dentro
e o de fora...

vieram de dois lugares?

[Pause]

O sem-nome
e o nomeado...

não brotaram da mesma nascente?

[Long pause]

Talvez seja uma coisa só
que, depois de dita,
vira duas.

[Instrumental Break: pad very low]

E então vem o mistério.

Mas mistério mesmo.

Mistério entranhado em mistério.

Um fundo que dá noutro fundo.

E depois outro.

[Very long pause]

Até que a gente percebe:

não era parede.

Era porta.

[Pause]

A porta
por onde o espanto entra no mundo.

[Long silence]

Ou por onde nós entramos nele.

[Outro: soft ambient pad, distant wind, slow fade]

[End]

Tags:

↑ Topo