O Prólogo

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Capa de O Prólogo

cateretêmoda de viola

3:54

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Letra

[Intro]

[Verse 1]
O telefone berrou num domingo parado
Era o Carlos Argentino, todo empolgado
Chamou pro salão-bar que foi inaugurado
Dois sócios modernos, dinheiro sobrado!
Bebemos um leite, ali, lado a lado
Mas o gole desceu... meio atravessado

[Verse 2]
(Carlos speaks with confidence, ignoring Borges)
Ele abriu a pasta com ar de importância
Leu quatro estrofes com muita arrogância
Disse: "Borges, escuta... que exuberância!
Esse meu poema vence qualquer distância!
Mas pra ter o sucesso e a ressonância...
Preciso de um prólogo de alta substância!"

[Verse 3]
(Borges' internal fear turns into shock)
"Quero um nome de peso, de brilho e de glória
Alguém que já tenha lugar na história..."
Eu gelei na cadeira, puxei a memória
Pensei: "Lá vem a missão vexatória!"
Já fui preparando a minha escapatória:
"Vou dizer que não sirvo, que a honra é ilusória..."
O "NÃO" tava pronto na minha oratória!

[Chorus]
(The Twist - Carlos praises Alvaro first, then assigns Borges as spokesperson)
(Rhythm gets punchier, rhymes are sharp)
Mas o Carlos seguiu, sem notar meu preparo
E soltou a bomba, num tom muito claro:
"Meu livro exige um prestígio mais caro!
O Álvaro Lafinur! Um talento tão raro!
Seja o meu porta-voz... pra eu ter esse amparo!
Fale com ele... sem nenhum reparo!"

[Bridge]
Eu suando frio pra não aceitar
E ele nem pensou em me convidar!
Disse que eu sirvo apenas de ponte
Pra ele beber em outra fonte!
O Álvaro é o ouro da mina...
E eu sou a poeira da esquina!

[Verse 4]
Engoli o orgulho e o leite com nata
Disse: "Falo com ele, na próxima data
Num jantar do Clube..." (mentira barata!)
Um jantar que não houve, nem hora exata
Ele riu, confiante, ajeitando a gravata
Saí do salão com a alma ingrata!

[Verse 5]
(Borges weighs his options in the street)
Dobrei a esquina, pesando a questão
Tinha duas vias na minha intenção:
Falar com o Álvaro, dar a descrição...
Que Carlos Argentino e a obra são a perdição!
Ou não fazer nada... pura inação.
A minha preguiça tomou a decisão!

[Outro]
O telefone tocou a semana inteira...
era Carlos Argentino cobrando a missão mensageira.
Eu não atendi.
Deixei o Daneri e a sua cegueira...
Comendo poeira.

Notas do compositor

“O Prólogo” é a faixa que abre o ciclo Borges porque o pedido de prólogo é exatamente onde o conto começa — Carlos Argentino liga num domingo, empolgado, quer que o narrador consiga de Álvaro Lafinur um prefácio para seu livro de poemas. A situação é cômica e humilhante de um modo específico: Carlos não pede o prólogo ao próprio Borges-narrador; pede que ele sirva de mensageiro para buscar o prólogo de alguém melhor. O narrador está presente apenas como utilidade. O “NÃO” que prepara na cadeira nunca sai porque Carlos nem perguntou — seguiu direto para a missão.

Quis que o cateretê fosse rápido e irônico, com vocais narrativos e articulados — a história tem ritmo de comédia, não de tragédia. A viola caipira com handclaps e foot-stomps cria uma sensação de farsa acelerada, que é o tom certo para o episódio: um homem que passa a semana inteira ensaiando uma recusa que nunca precisou dar, enquanto o telefone toca e ele simplesmente não atende. O Suno manteve a leveza que pedi; a ironia do Verso 5 — “A minha preguiça tomou a decisão!” — funciona como punch line porque a instrumentação já preparou o terreno.

O que me interessa aqui é menos a vaidade de Carlos do que a inércia do narrador. Borges-personagem é passivo ao longo de quase todo o conto — observa, suporta, não diz nada, não faz nada, deixa passar. Isso não é fraqueza de caráter; é uma estratégia de sobrevivência de alguém que aprendeu que o mundo funciona mesmo sem sua intervenção. A preguiça como posição filosófica. Num projeto maior sobre processo ontology e o Ruliad, isso tem uma ressonância que não é irônica: se tudo já está contido no espaço de todas as possibilidades, talvez a decisão de não decidir seja apenas mais um percurso computado. A faixa não vai tão longe. Fica no chiste — que também é honesto.

Nota: Em retrospectiva, o ritmo deliberadamente ágil destas passagens buscava impacto visceral, talvez à custa de uma fundação teórica mais longa, contrastando com defesas acadêmicas rigorosas.

Tags: #música

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