Eu ia escrever sobre o infinito de novo.
· 4 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #19/97
Letra
[INTRO - SPOKEN]
Eu ia escrever sobre o infinito de novo.
Mas aí você respirou do meu lado
e o mundo inteiro coube nesse som.
Então é isso.
Hoje eu canto o pequeno.
[VERSE 1]
Tem um copo na pia,
tem luz da rua cortando a sala,
tem a geladeira roncando baixo
como um bicho que sonha.
E eu, no meio disso,
tentando ser profundo—
mas a profundidade agora
é aprender a não acordar ninguém
quando eu piso no corredor.
Lá fora o céu faz suas contas,
faz seus ramos, suas variações,
mas aqui dentro
um cobertor torto
já é um universo em manutenção.
[PRE-CHORUS]
Porque a vida não grita “totalidade”,
a vida sussurra “agora”.
E “agora” é sempre pouca coisa—
e é por isso que vale.
[CHORUS]
Se existe tudo,
eu escolho isto:
teu nome dito devagar
pra não quebrar o silêncio.
Se existe tudo,
eu escolho isto:
minha mão achando a tua mão
como quem encontra sentido.
E o resto—
o resto pode ser infinito,
mas eu moro nesse instante
e isso me basta.
[VERSE 2]
Você me pergunta, sem perguntar,
por que eu fico acordado.
Eu digo “insônia”,
mas é outra palavra:
responsabilidade.
É que o mundo é grande demais
pra caber no peito sem machucar,
então eu faço o que dá:
arrumo as cadeiras,
fecho a janela,
desligo a TV do apocalipse
e volto pro essencial.
Um dia a gente some,
eu sei, eu sei—
mas antes disso
tem café pra amanhã,
tem roupa no varal,
tem um remédio às seis,
tem um beijo na testa
que reorganiza o caos.
[PRE-CHORUS 2]
E eu entendo, sem entender:
não é que o universo seja frio—
é que ele é grande.
E o calor acontece
quando alguém decide ficar.
[CHORUS]
Se existe tudo,
eu escolho isto:
teu nome dito devagar
pra não quebrar o silêncio.
Se existe tudo,
eu escolho isto:
minha mão achando a tua mão
como quem encontra sentido.
E o resto—
o resto pode ser infinito,
mas eu moro nesse instante
e isso me basta.
[BRIDGE - SPOKEN]
Dizem que a realidade é um recorte.
Uma janela que se move.
Talvez.
Mas hoje eu aprendi outra coisa:
o recorte também é um voto.
E amar é votar no mesmo ramo
toda noite, de novo.
[BRIDGE - SUNG]
Eu não salvo o mundo,
eu não resumo o mar,
eu não desenrolo
as equações do azar—
mas eu acendo uma lâmpada
quando você tem medo,
eu viro o travesseiro
pro lado mais fresco.
E nisso, sem espetáculo,
eu sinto:
o universo olhando pra si
por um segundo
e sorrindo.
[FINAL CHORUS]
Se existe tudo,
eu escolho isto:
o pequeno que não cabe em teoria,
mas cabe no peito.
Se existe tudo,
eu escolho isto:
um mundo do tamanho do quarto
e a coragem de chamá-lo “meu jeito”.
E o resto—
o resto pode ser infinito,
mas eu moro nesse instante…
e eu fico.
[OUTRO - SPOKEN]
A terceira canção não fala de estrelas.
Fala do que faz as estrelas
não serem só números:
alguém acordado,
cuidando.
Notas do compositor
Esta é a terceira canção da série Moving Window, e o título já contém a autocrítica: eu ia escrever sobre o infinito de novo. Tenho feito isso com frequência demais — pegar a ideia do Ruliad, da janela que se move pelo espaço de todos os cálculos possíveis, e tentar encontrar uma frase que segure o peso disso. O que a canção propõe é que esse esforço às vezes precisa ser interrompido por algo que não tem escala: o barulho da geladeira, o cuidado de não acordar ninguém no corredor. Não é que o infinito não importe — é que ele não aquece.
O spoken word no intro me convenceu de que estava na direção certa. “Você respirou do meu lado / e o mundo inteiro coube nesse som” — isso veio de uma tentativa de escrever o oposto do que escrevo normalmente. Normalmente parto do maior e vou estreitando. Aqui tentei partir do menor e ver se ele aguentava. A geladeira que “ronca baixo / como um bicho que sonha” — admito que essa imagem me agradou mais do que qualquer formulação que já produzi sobre a topologia do Ruliad.
O bridge falado tem a linha que mais me custou: “o recorte também é um voto”. No argumento técnico que estou desenvolvendo em Events All the Way Down, uma janela observacional não é passiva — ela seleciona, e toda seleção tem custo e direção. Mas o que a canção quer dizer é algo ligeiramente diferente: que amar alguém é uma forma de apostura, de escolher que esse ramo do espaço de possibilidades é onde você mora. O Suno entendeu o andamento cinematográfico que pedi, mas o que me surpreendeu foi a qualidade do silêncio no pré-refrão — o kick suave que some antes do coro, como se a música também estivesse escolhendo onde pousar.
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