O Telefone da Agonia

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Capa de O Telefone da Agonia

moda de violasertanejo

3:02

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Letra

[Intro]
(Fast and repetitive Viola notes, sounding like an old telephone ringing)
(Tension building up)

[Verse 1]
(Male Voice 1 - Low, Calm, Cynical)
Era dia trinta de outubro, eu queria o meu café
Mas o telefone grita, quem será o "bicho-de-pé"?
Atendi contrariado, já prevendo a amolação
Era a voz do primo Carlos, tremendo de aflição

[Verse 2]
(Male Voice 2 - High, Fast, Desperate)
Alô, Borges! Me acuda! É o fim da minha vida!
A casa da Rua Garay tá com a sorte decidida!
Os doutores Zunino e Zungri, aquela gente maldita
Vão derrubar o sobrado pra ampliar a confeitaria!

[Pre-Chorus]
(Male Voice 1 - Calm)
Calma, homem, respira, isso é coisa do progresso
Muda pra um apartamento, larga mão desse excesso
Toda casa velha cai, é a lei da construção...

[Chorus]
(Male Voice 2 - Screaming, Hysterical)
Você não entende nada! Não é tijolo e chão!
Eu não ligo pra varanda, nem pra sala de jantar
O problema é o porão! O que eu tenho guardado lá!
Se a picareta bater, se a parede desabar
Eu perco a minha alma, eu paro de respirar!

[Interlude]
(Dramatic silence)
(Viola stops)

[Bridge]
(Male Voice 1 - Spoken)
Mas o que tem nesse porão? Ouro, prata ou vinho bom?

(Male Voice 2 - Whispering building to ecstasy)
Borges, cê num acredita, cê vai achar que é invenção...
Lá embaixo, no escuro, no degrau dezenove
Tem uma coisa sagrada que o homem nem se atreve...
É o Aleph, meu primo! O Aleph tá lá no chão!

[Verse 3]
(Male Voice 2 - Intense)
É o lugar onde estão todos os lugares do sertão
Onde o mundo todo cabe, sem perder a dimensão!
O universo inteiro, Borges, num pontinho de luz
Se a casa cair agora, apaga a minha cruz!

[Outro]
(Fast Tempo)
Você tem que vir agora! Vem correndo, vem ligeiro!
Antes que a Zunino e Zungri destruam o mundo inteiro!
(Abrupt cut)
(Silence)

Notas do compositor

Esta é uma versão em moda de viola do conto “O Aleph”, de Borges — mas não qualquer versão. Quis narrar especificamente a cena do telefonema: Carlos Argentino Daneri ligando para Borges em pânico porque a casa da Rua Garay vai ser demolida. A agonia de Carlos não é pela casa em si, pelo tijolo ou pela varanda, mas pelo porão — pelo degrau dezenove onde existe o Aleph, o ponto do espaço que contém todos os pontos. Perder o Aleph é perder a fonte. É perder o acesso ao ilimitado.

Escolhi a moda de viola deliberadamente — a viola caipira tem uma relação ancestral com a narrativa longa, com o causos do interior. Cresci em Rolim de Moura ouvindo viola em festas de fazenda, e sempre me pareceu o instrumento mais honesto para contar histórias que precisam de um certo peso dramático sem afetação. O Suno acertou na tensão: a viola abre “como um telefone antigo tocando”, o prompt dizia, e foi exatamente isso que veio. A urgência de Carlos — “vem correndo, vem ligeiro, antes que a Zunino e Zungri destruam o mundo inteiro!” — ganha uma dimensão cômica e ao mesmo tempo genuinamente trágica nesse arranjo.

O que me interessa no Aleph como metáfora não é a onisciência que ele promete mas a dependência que ele cria. Carlos é um poeta medíocre que produz quinze mil versos sobre a Austrália sem nunca ter saído da Argentina — e o acesso ao Aleph não o torna melhor poeta, apenas mais prolixo. A infinitude disponível não garante nada sobre o que fazemos com ela. Isso tem uma relação direta com o que tenho tentado pensar no Events All the Way Down: o Ruliad, o espaço de todos os cálculos possíveis, existe independentemente de qualquer observador — mas o observador é o recorte, e o recorte é tudo. Carlos tem o recorte errado. Borges, no conto, vai ao porão e vê tudo — e depois escrece um ensaio sobre o Aleph que deliberadamente falsifica o que viu.

Tags: #música

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