· 2 min read
Meditação guiada no sertão
Music by Franklin Baldo — Meditação guiada no sertão
Listen to the music

Meditação guiada no sertão
spoken word · ambient · 5:55
Lyrics
Bem vindo, se achegue mais.
[Pause]
Ache um lugar pra si.
Um assento, um chão firme, onde o corpo possa repousar um tanto.
Isso!
Feito quem chega de caminhada longa e encontra sombra de juazeiro.
Pode fechar os olhos, devagar. Ou só baixar a vista, se assim for melhor.
Ninguém tá mandando. É só um convite.
[Pause]
Agora, repare. Repare no corpo assentado. Sinta o peso dele.
Sinta onde ele toca o chão. Sinta a firmeza debaixo. Deixe o corpo pesar aí. Soltar as amarras. Se é que dá pra soltar tudo, mas a gente tenta.
[Pause]
E o fôlego. ah, o fôlego. Coisa que vai e vem sem pedir licença. Já reparou? Tente reparar agora. O ar que entra, meio fresco, não é? E o ar que sai, mais morno um tiquinho.
Não precisa mudar nada. Nem forçar respiração funda, nem prender. Só mirar. Mirar esse ir e vir constante.
[Pause]
Feito vereda estreita que a gente segue o fôlego é um caminho. Um caminho pra dentro. Deixe a atenção pousar aí. Nesse movimento simples. Ar entrando. Ar saindo.
[Pause]
A cabeça eu sei. Ela não para quieta, não é mesmo? Vem pensamento, vem lembrança, vem preocupação, feito poeira que o vento levanta na chapada.
Vem coisa boa, vem coisa ruim.
Vem memória teimosa, vem medo sem nome.
É assim mesmo. Não brigue com eles. Deixe vir.
[Pause]
Olhe pra esses pensamentos como quem olha nuvem passando no céu do sertão. Elas vêm, tomam forma e se desmancham.
Vão embora. Não são você. São só nuvens na mente.
Deixe passar.
[Pause]
Se perceber que a mente engatou num pensamento, numa história e foi longe, tá tudo certo.
É o jeito dela.
Com calma, feito quem puxa a rédea de cavalo manso, traga a atenção de volta.
De volta pro fôlego. Pra essa sensação simples do ar entrando e saindo.
Uma vez. outra vez. Quantas vezes precisar. Sem pressa. Sem raiva.
[Pause]
Só sentir. Sentir o corpo respirando. Aqui. Agora. Sentir talvez uma tensão no ombro. Uma coceira no rosto. Um calor na mão. Só notar. Sem precisar gostar ou não gostar. É só o que está aí. Nesse momento. A vida se mostrando miúda.
[Pause]
Aquietar a mente também tem seus perigos, suas manhas. Mas talvez, talvez nesse sossego miúdo, nesse reparar sem briga, a gente encontre um tiquinho de paz. Um chão mais firme pra pisar na travessia que é cada dia. Não é mesmo?
[Pause]
Fique mais um pouco assim. Só respirando. Só sendo. Neste lugar. Neste tempo. Com tudo que tá aí dentro. A mistura toda que a gente é.
[Pause]
Bom. O tempo ele corre. Devagarzinho comece a se preparar pra voltar. Sinta de novo o corpo inteiro assentado. Mexa de leve os dedos das mãos, e também dos pés.
[Pause]
Quando se sentir pronto, pode abrir os olhos devagar. Olhar em volta. Veja as cores, as formas. Como se visse pela primeira vez depois de muito tempo.
[Pause]
Leve essa quietude com você. Foi só uma parada na vereda. A caminhada continua. Vá em paz.Composer Notes
The idea was simple and a little irreverent: take the format of guided meditation — a genre with its own liturgy of soft voice, cadenced pause, and mindfulness vocabulary — and rewrite it in the language of Guimarães Rosa. Not pastiche of Grande Sertão: Veredas, but contamination: the sertão lexicon entering this space of urban, technological quietude. "Like someone arriving after a long walk who finds shade under a juazeiro tree" instead of "as if arriving at a safe place." The juazeiro is a specific tree, a specific kind of shade — and that specificity matters. The meditation-app generalization erases place; the sertanejo version restores it.
For English readers: the lyrics are in Portuguese, in a register that deliberately blends the sparse, imperative voice of a mindfulness guide with the rhythms and imagery of Brazil's northeastern interior — the sertão of Guimarães Rosa. The instruction "let your attention settle there, like a narrow path you follow" is standard mindfulness rewritten as landscape. "The mind doesn't stay still — thoughts come like dust the wind raises on the chapada" — the chapada is the high, dry plateau of the Brazilian interior. The meditation works only if you can feel what kind of dust that is.
What surprised me while writing was that the two registers are compatible in a way I hadn't anticipated. Rosa is, in many senses, already a writer of attention — Riobaldo lives between what is noticed and what is let pass. "Let your attention settle there" in the mindfulness text and "like a narrow path the breath follows" are similar instructions given from different altitudes. I grew up in Rolim de Moura, and the stillness of the sertão that Rosa describes — "to quiet the mind also has its dangers, its tricks" — that I recognized. I'm not sure the track works as a meditation. I know it works as a tribute to an intelligence I found in books that taught me place and attention cannot be separated.