Meditação guiada no sertão
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Letra
Bem vindo, se achegue mais.
[Pause]
Ache um lugar pra si.
Um assento, um chão firme, onde o corpo possa repousar um tanto.
Isso!
Feito quem chega de caminhada longa e encontra sombra de juazeiro.
Pode fechar os olhos, devagar. Ou só baixar a vista, se assim for melhor.
Ninguém tá mandando. É só um convite.
[Pause]
Agora, repare. Repare no corpo assentado. Sinta o peso dele.
Sinta onde ele toca o chão. Sinta a firmeza debaixo. Deixe o corpo pesar aí. Soltar as amarras. Se é que dá pra soltar tudo, mas a gente tenta.
[Pause]
E o fôlego. ah, o fôlego. Coisa que vai e vem sem pedir licença. Já reparou? Tente reparar agora. O ar que entra, meio fresco, não é? E o ar que sai, mais morno um tiquinho.
Não precisa mudar nada. Nem forçar respiração funda, nem prender. Só mirar. Mirar esse ir e vir constante.
[Pause]
Feito vereda estreita que a gente segue o fôlego é um caminho. Um caminho pra dentro. Deixe a atenção pousar aí. Nesse movimento simples. Ar entrando. Ar saindo.
[Pause]
A cabeça eu sei. Ela não para quieta, não é mesmo? Vem pensamento, vem lembrança, vem preocupação, feito poeira que o vento levanta na chapada.
Vem coisa boa, vem coisa ruim.
Vem memória teimosa, vem medo sem nome.
É assim mesmo. Não brigue com eles. Deixe vir.
[Pause]
Olhe pra esses pensamentos como quem olha nuvem passando no céu do sertão. Elas vêm, tomam forma e se desmancham.
Vão embora. Não são você. São só nuvens na mente.
Deixe passar.
[Pause]
Se perceber que a mente engatou num pensamento, numa história e foi longe, tá tudo certo.
É o jeito dela.
Com calma, feito quem puxa a rédea de cavalo manso, traga a atenção de volta.
De volta pro fôlego. Pra essa sensação simples do ar entrando e saindo.
Uma vez. outra vez. Quantas vezes precisar. Sem pressa. Sem raiva.
[Pause]
Só sentir. Sentir o corpo respirando. Aqui. Agora. Sentir talvez uma tensão no ombro. Uma coceira no rosto. Um calor na mão. Só notar. Sem precisar gostar ou não gostar. É só o que está aí. Nesse momento. A vida se mostrando miúda.
[Pause]
Aquietar a mente também tem seus perigos, suas manhas. Mas talvez, talvez nesse sossego miúdo, nesse reparar sem briga, a gente encontre um tiquinho de paz. Um chão mais firme pra pisar na travessia que é cada dia. Não é mesmo?
[Pause]
Fique mais um pouco assim. Só respirando. Só sendo. Neste lugar. Neste tempo. Com tudo que tá aí dentro. A mistura toda que a gente é.
[Pause]
Bom. O tempo ele corre. Devagarzinho comece a se preparar pra voltar. Sinta de novo o corpo inteiro assentado. Mexa de leve os dedos das mãos, e também dos pés.
[Pause]
Quando se sentir pronto, pode abrir os olhos devagar. Olhar em volta. Veja as cores, as formas. Como se visse pela primeira vez depois de muito tempo.
[Pause]
Leve essa quietude com você. Foi só uma parada na vereda. A caminhada continua. Vá em paz.
Notas do compositor
A ideia era simples e um pouco irreverente: pegar o formato de meditação guiada — um gênero com sua própria liturgia de voz suave, pausa cadenciada, vocabulário de atenção plena — e reescrever em linguagem de Guimarães Rosa. Não pastiche do Grande Sertão: Veredas, mas contaminação: o léxico do sertão entrando nesse espaço de quietude urbana e tecnológica. “Feito quem chega de caminhada longa e encontra sombra de juazeiro” no lugar de “como se chegasse a um lugar seguro”. O juazeiro é uma árvore específica, é uma espécie de sombra específica — e isso importa. A generalização do aplicativo de meditação apaga o lugar; a versão sertaneja o restaura.
O que me surpreendeu ao escrever foi que os dois registros são compatíveis de um modo que não antecipei. Rosa já é, em muitos sentidos, um escritor da atenção — Riobaldo vive entre o que se nota e o que se deixa passar. “Deixe a atenção pousar aí” no texto de mindfulness e “Feito vereda estreita que a gente segue o fôlego é um caminho” são instruções parecidas dadas de altitudes diferentes. O Suno trouxe flauta baixa, sinos esparsos, murmúrio de água — nada de música em sentido estrito. Certo para o que a letra pedia.
Cresci em Rolim de Moura, numa casa com rádio sempre ligado e livros na prateleira que ninguém havia pedido que ficassem ali. A meditação não era um gênero que meu interior de Rondônia conhecia — era coisa de cidade grande, de livraria com aroma de vela. Mas a quietude do sertão que Rosa descreve — “aquietar a mente também tem seus perigos, suas manhas” — essa eu reconhecia. Não sei se a faixa funciona como meditação. Sei que funciona como homenagem a uma inteligência que encontrei nos livros e que me ensinou que lugar e atenção não se separam.
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