Nonada
· 3 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #3/97
Letra
Pois bem, senhor… Chegue mais.
Encontre seu canto: cadeira, chão firme, sombra de juazeiro depois da caminhada longa.
Quando sentir, feche os olhos — ou só baixe a vista, que aqui ninguém manda em ninguém.
É só convite.
Sinta o contato: peso nos quadris, planta dos pés na terra batida, fresca da chuva mansa.
Deixe o corpo repousar, como mala largada no alpendre.
Agora, preste atenção no sopro que sustenta tudo.
O ar chega, fresquinho, beirando a narina; sai um tantinho morno, levando o cansaço.
Se o fôlego engasgar, volte devagar — não há pressa.
Pensamento vem?
Deixe que venha.
Recordação boa, temor sem nome, poeira levantada de chapadão.
Olhe essas nuvens: uma vira carneirinho, outra some atrás do morro.
Não são você; apenas passam.
Quando notar que se perdeu na conversa da mente, puxe a rédea como quem chama cavalo manso e volte para o ar entrando, saindo, sempre.
Talvez repare num formigamento na perna, numa coceira no rosto, no zunir de uma cigarra distante.
Note apenas; não julgue.
São sinais de que está vivo — vida miúda se exibindo.
Viver é muito perigoso, já contaram.
Sossegar também tem suas manhas.
Ainda assim, nesse mirar sem briga, quem sabe você ache um poço de quietude: água funda pra seguir viagem.
Fique mais um tiquinho.
Respire.
Seja.
Quando o tempo lhe chamar, sinta o corpo inteiro assentado; mexa dedos, espreguice.
Abra os olhos devagar.
Deixe as cores lhe saudarem, como se vistas depois de seca longa.
Leve no peito esse fiapo de silêncio.
Que lhe sirva de cantil na travessia.
Vá em paz.
Nonada.
Notas do compositor
“Nonada” é a primeira palavra de Grande Sertão: Veredas — e Guimarães Rosa a escolheu para abrir o livro inteiro porque ela contém tudo e não diz nada. Ninharia. Quase nada. O Riobaldo começa a contar sua história com um gesto de minimização que é também um gesto de convite: senta aqui, isso não é grande coisa, mas escuta. A faixa nasceu dessa tensão — queria criar uma meditação guiada que usasse a voz do sertão como veículo, não como ornamento folclórico. O narrador que escrevi fala como quem já caminhou longe e sabe que o silêncio tem mais peso que a explicação.
Há deliberação na escolha dos elementos do prompt: barítono com sotaque nordestino, viola fingerpicked em ré maior, cigarras, brisa entre folhas de juazeiro. Queria o sertão depois da chuva — o momento em que a terra respira e você entende, fisicamente, o que é alívio. O Suno entregou exatamente a textura que pedi: a voz grave que não aponta para cima, o reverb arejado da viola que some nos harmônicos. Às vezes a ferramenta sabe o que quer dizer melhor do que eu imaginava.
A linha que mais importa para mim é “Viver é muito perigoso, já contaram.” Ela é diretamente de Riobaldo — ou quase, porque o original é “Viver é muito perigoso.” Deixei o “já contaram” porque o narrador de meditação é mais gentil que o ex-jagunço, mas a citação é intencional. Há uma honestidade do sertão que não está disponível na linguagem do bem-estar contemporâneo. Riobaldo não sossegava porque estava tranquilo; sossegava porque tinha atravessado o insuportável. A faixa encerra com “Nonada” — o mesmo gesto que abre o romance, repetido aqui como encerramento, como se o descanso e o começo fossem a mesma coisa.
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