A Primeira Mudança
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Letra
[Lyrics]
[Intro]
(Slow Viola Caipira Solo - Sad and reflective)
[Verse 1]
Manhã de fevereiro, o sol tava queimando
Fazia um calor que o asfalto ia estalando
A morte veio seca, sem ninguém tá esperando
Beatriz se foi embora, agonia imperando
Não teve despedida, nem medo se mostrando
Só o silêncio da casa que ficou lá me olhando
[Interlude]
(Viola strumming)
[Verse 2]
Saí pra caminhar pra tentar me consolar
Na Praça da Constituição eu fui parar
Olhei pros painéis de ferro naquele lugar
Tinha um anúncio de fumo pra gente tragar
Mas trocaram a pintura, botaram outra no ar
E aquilo me deu uma raiva de me fazer chorar
[Chorus]
(Powerful vocals, with harmony)
Ai, mundo ingrato que não para pra sofrer
A dor da minha perda ninguém quer saber
O universo segue, não tem tempo a perder
Se mudaram o cartaz, vão mudar o meu viver
[Bridge]
(Spoken Word / Declamado)
"Ali eu vi... que o universo já estava se afastando dela.
Essa mudança no anúncio era só a primeira...
De uma série infinita."
[Verse 3]
Ali eu compreendi, com o peito doendo
Que o mundo da Beatriz já tava morrendo
Aquela troca de foto, eu fui entendendo
Era o primeiro sinal do tempo correndo
Uma série infinita de coisas esquecendo
Meu Deus, quanta tristeza eu tô percebendo
[Outro]
A vida continua, a engrenagem girando...
E a memória dela... aos poucos se apagando.
(Fade out with solo viola)
Notas do compositor
A imagem de abertura do conto “O Aleph” — o narrador olhando para o painel de anúncio de cigarros na Praça Constituição e sentindo desgosto porque o universo já estava se afastando de Beatriz — me parece uma das descobertas filosóficas mais honestas que a ficção já fez. Não é luto convencional. É a percepção de que a morte de alguém não ocorre no instante do último suspiro; ela se propaga em série infinita de pequenas substituições. O cartaz foi trocado. O primeiro esquecimento do mundo.
Essa música é o mesmo momento, mas transposto para a voz de um homem do interior — viola caipira, canto direto, sem sofisticação literária explícita. Queria ver o que acontecia quando você tirava a camada borgesiana e deixava só o fato: alguém morreu em fevereiro, o sol estava queimando, e o universo não esperou. A viola caipira carrega isso de uma forma que o texto erudito não consegue — há uma materialidade no lamento sertanejo que pousa diferente no corpo.
O que me perturbou no processo foi o verso “se mudaram o cartaz, vão mudar o meu viver.” Não estava no Borges original, emergiu da adaptação. E é uma conclusão que Borges nunca tiraria — ele escolheria a devoção obstinada à memória, não a capitulação. Mas o personagem desta versão entende, desde o começo, que vai esquecer. Essa honestidade me pareceu mais cruel e mais verdadeira.
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