Leite no Salão-Bar

· 3 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #39/97

Capa de Leite no Salão-Bar

moda de violafolk

3:20

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Letra

[Intro]
(Viola Caipira playing a rhythmic Cateretê strumming)
(A lively, catchy intro)

[Verse 1]
Dois domingos depois, o telefone tocou
Foi a primeira vez que o primo me chamou
Disse: "Vamos sair, ver o que o progresso criou"
Na esquina da rua, um tal 'Salão-Bar' inaugurou
Obra de Zunino e Zungri... o dinheiro ali sobrou

[Verse 2]
Fui com resignação, sem ter muita vontade
O lugar era o símbolo da tal modernidade
Luz forte que cega, sem nenhuma intimidade
Mesas de ferro frio, servindo a vaidade
O primo achava chique, aquela calamidade
Pedimos dois copos de leite... quanta felicidade!

[Chorus]
(Stronger, slightly humorous tone)
Ele alisou o bigode e foi direto ao ponto
"Primo Borges, escuta, não me tome por tonto
Meu poema é um tesouro, disso eu não desconto
Mas precisa de um prólogo, pra aumentar o seu conto!"

[Verse 3]
"Fale com o Álvaro Lafinur, aquele autor de desponte
Peça pra ele escrever... pra servir de horizonte"
Eu balancei a cabeça, fiz a confirmação
"Pode deixar, primo Carlos, tá na minha mão!"
Mas por dentro eu sabia... era tudo invenção

[Bridge]
(Viola Solo - Mischievous sound)

[Verse 4]
Prometi falar quinta, num jantar do Clube de Leitura
(Um jantar que não existe, pura e simples impostura)
Saí de lá decidido, mantendo a postura
Mas assim que dobrei a esquina, mudei a figura
O tal pedido do Álvaro... foi pra sepultura
Resolvi não fazer nada, com a maior cara dura!

[Outro]
O telefone tocou a semana inteira...
(Pause)
Eu não atendi.
(Viola slows down)
Deixei o primo e o prólogo... comendo poeira.
(Final sharp strum)

Notas do compositor

Existe um conto de Borges chamado “O Encontro com o Escritor”, onde ele descreve um jantar com um primo distante que pede que ele apresente seus poemas a algum intelectual influente. Borges concorda, sabe imediatamente que não vai cumprir, e passa o resto do conto descrevendo sua própria covardia com uma precisão clínica que beira o orgulho. Este episódio específico passado no salão-bar é fictício — mas o tom de fuga inevitável não é. O que me atraiu foi que Borges, com sua lucidez quase cirúrgica, nunca se desculpa e nunca se condena: apenas registra. Queria tentar isso na forma de moda de viola.

A escolha do gênero foi deliberada e um pouco arriscada. A viola caipira tem uma tradição de narrativa cômica do interior, de “causo” — o homem simples que observa o mundo moderno com desconfiança benevolente. Colocar Borges nessa moldura é transposição de registro, e a tensão entre o conteúdo literário e a forma popular era o ponto. “Obras de Zunino e Zungri… o dinheiro ali sobrou” — esses nomes aparecem em Borges como marca de Buenos Aires novo-rico, e na viola caipira soam como os donos de toda fazenda que comprou trator antes de ter estrada.

O Suno entregou o cateretê com mais vivacidade do que eu esperava — o dedilhado de viola caipira no intro, os palmas sincopadas, a voz com sotaque caipira levemente acentuado. O resultado tem humor que não pedi explicitamente, mas que pertence ao material. O telefone tocando a semana inteira e ninguém atendendo é a última imagem — Borges finalmente quieto, o primo esperando, o prólogo que nunca foi escrito. Há algo sobre o silêncio como forma de integridade literária que me parece autêntico ao personagem, mesmo que a história seja minha invenção sobre a dele.

Tags: #música

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