O Aleph
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Letra
[Intro]
(Complex, virtuoso Viola Caipira solo - "Ponteio" style)
(Clean acoustic bass backing)
(Fast Chamamé rhythm starts)
[Verse 1]
(Soft, melodic voice, singing slightly fast)
Fechei os olhos no escuro, deitado naquele chão
Senti o cheiro da terra, perdi a respiração
De repente o escuro abriu, num clarão de amanhecer
Vi o ponto onde tudo existe, o começo e o morrer
Um pontinho furta-cor, brilhando no degrau frio
Onde o mundo desaguava, feito a boca de um rio
[Chorus]
(Harmonious, flowing)
Era o Aleph, meu amigo, a esfera do infinito
Sem tamanho e sem fronteira, o silêncio e o grito
Vi o espaço concentrado, sem nada se misturar
Tudo o que existe no mundo, eu pude testemunhar
[Bridge - The River of Images]
(Tempo accelerates - The viola creates a wall of sound)
(Vocals become a rhythmic stream of consciousness)
Vi o mar bater na pedra, vi a neve e vi a areia
Vi a estrutura do raio, vi o sangue na aveia
Vi serras de outras terras, vi desertos sem ninguém
Vi o rosto do meu pai, vi o mal e vi o bem
Vi cachos de uva madura, vi a luz numa teia
Vi a rota dos planetas, vi o fogo que incendeia!
Vi tigres, vi exércitos, vi a sombra e a cor
Vi a engrenagem do tempo, a máquina do amor!
[Break]
(Music stops suddenly - Just a single viola note ringing)
(Silence for a second)
[Verse 2]
(Slower, sadder tone - The heartbreak)
Mas no meio dessa grandeza, onde tudo se revela...
Vi uma gaveta aberta... e a letra era dela.
Vi as cartas de Beatriz, escritas com indecência
Mandadas pro primo Carlos... que triste evidência.
Vi o que não queria ver, a traição tão doída
O infinito me mostrou... a piada da minha vida.
[Outro]
(Viola solo returns, but slower and melancholic)
Tive tontura e chorei.
O universo é grande demais.
E a saudade... é pequena e cruel.
(Fade out on a beautiful viola chord)
Notas do compositor
O Aleph de Borges é um ponto no subsolo de Buenos Aires onde você vê tudo que existe ao mesmo tempo — cada lugar, cada pessoa, cada momento, sem sobreposição, sem hierarquia. Quando comecei a trabalhar na série A Janela em Movimento e na ideia do Ruliad, percebi que o Aleph é uma antecipação literária do que Wolfram descreve matematicamente: o espaço de todas as computações possíveis, o substrato de onde recortamos nossa experiência limitada. Borges chegou lá em 1945, antes de qualquer linguagem formal para isso. Essa faixa é minha tentativa de habitar o conto por dentro, não de comentá-lo de fora.
Escolhi o chamamé como gênero — ritmo acelerado, viola caipira em estilo ponteio, algo virtuoso e compulsivo — porque a revelação do Aleph no conto de Borges tem essa qualidade: é rápida demais para ser processada, um fluxo que não permite pausa. O “Bridge – The River of Images” foi onde isso ficou mais honesto: uma sequência de visões acumuladas sem descanso, “Vi o mar bater na pedra, vi a neve e vi a areia / Vi a estrutura do raio, vi o sangue na aveia”. O Suno sustentou a aceleração que pedi, a viola criando uma parede de som no momento exato em que a narrativa transborda.
O que mais me interessa no conto original — e o que tentei preservar — é a piada cruel do final. O narrador vê o universo inteiro e o que o destrói é encontrar as cartas de Beatriz para o primo Carlos. O infinito revelou a traição. O Aleph não é uma experiência transcendente que eleva: é uma experiência total que inclui exatamente o que você não queria saber. Isso me parece mais fiel à estrutura do Ruliad do que qualquer mística: a totalidade não seleciona, não protege, não consola. O narrador sai do porão com tontura e saudade, não com iluminação. A saudade, no fim, “é pequena e cruel” — e é precisamente essa assimetria entre a grandeza do universo e a miséria do coração humano que o Aleph expõe.
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