O Medo do Louco

· 3 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #10/97

Capa de O Medo do Louco

folkambient

4:28

Ouvir no Suno ↗

Letra

[Intro]
(Slow, dissonant Viola notes)
(Sound of footsteps echoing)
(Heavy breathing)

[Verse 1]
(Low voice, narrating with suspicion)
Cheguei na Rua Garay, o portão tava encostado
O primo me esperava, com o olho revirado
Me ofereceu um conhaque, num copo sujo de pó
Bebi pra criar coragem... desceu queimando o gogó
Ele apontou pro chão, pra uma porta de alçapão
"É lá embaixo, Borges, que vive a revelação"

[Verse 2]
A escada era estreita, cheiro de mofo e passado
Cada degrau que eu descia, me sentia mais fechado
A umidade subia, grudava na minha pele
Eu pensei: "Meu Deus do céu, a loucura dele expele"
Ele trancou a porta? Eu ouvi a chave girar?
Será que é hoje o dia que eu vou me acabar?

[Chorus]
(Tense, slightly louder)
Tô num porão escuro com um louco varrido
Enterrado vivo, sem ter nem pedido
Aquele conhaque tinha um gosto amargo...
Será veneno? Será letargo?
Vim ver um milagre, mas sinto o perigo
O medo é o único que desceu comigo

[Bridge]
(Spoken/Whispered - mimicking Carlos' instructions)
"Deita no chão, primo! Deita de costas!"
"Olha pro décimo nono degrau!"
"Não mexe a cabeça, aguenta o mau cheiro!"
"O Aleph não gosta de quem é ligeiro!"

[Verse 3]
(Singing again, panic rising)
Ele colocou um saco embaixo da minha nuca
Eu ali estirado, nessa posição maluca
O escuro era tanto que pesava no peito
Carlos saiu correndo, me deixou desse jeito
"Se eu gritar ninguém ouve", o pensamento ecoou
E no silêncio da terra... o tempo parou.

[Outro]
(Very slow fading viola)
Sozinho.
No escuro.
Esperando a morte... ou a luz.
(Silence)

Notas do compositor

Esta é a faixa que falta antes de “O Aleph” — a perspectiva do narrador de Borges descendo ao porão, não como místico em busca de revelação, mas como homem com medo razoável de ter sido envenenado por um louco. O conto original tem essa dimensão e ela é frequentemente ignorada nas leituras filosóficas: Borges-personagem deita no chão fétido de um porão escuro, bebe um conhaque de gosto amargo oferecido por Carlos Argentino, ouve a chave girar na porta, e espera. O medo é completamente justificado. A visão do Aleph, quando vem, é quase uma surpresa depois do terror.

Quis que a instrumentação do Pantanal carregasse esse peso: viola de cocho com dissonância, rabeca como porta enferrujada, bordões graves de violão. Não é folclore decorativo — é folclore como matéria de angústia. O Suno entregou exatamente o ambiente de tensão que pedi, a viola aparecendo e desaparecendo como respiração contida. As instruções de voz no texto — “narrating with suspicion”, “panic rising” — foram respeitadas na progressão da faixa: o narrador começa com desconfiança e termina com o silêncio pesando.

A linha que me importa mais é o refrão: “Vim ver um milagre, mas sinto o perigo / O medo é o único que desceu comigo.” Isso captura a situação epistemológica de qualquer pessoa que descende em busca de algo que não sabe se existe. Você traz curiosidade, traz vontade de acreditar — mas o que efetivamente acompanha é o medo. E o medo não é fraqueza aqui; é o único instrumento de leitura disponível num porão escuro com um conhaque de gosto duvidoso. O narrador ainda não sabe se o que vem a seguir é revelação ou alucinação. Ele só sabe que a porta trancou por fora e o chão está frio. Essa faixa existe exatamente nesse intervalo: entre a promessa de transcendência e a certeza do mofo.

Tags: #música

Read in English

Histórico de versões (1)

Comentários

Comentários ainda não configurados.

↑ Top