O Preço da Saudade
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Letra
[Lyrics]
[Intro]
(Viola Caipira com ponteado firme e grave)
[Verse 1]
Em vinte e nove, a visita era curta e marcada
Sete e quinze eu chegava, pra cumprir a jornada
Mas em trinta e três, a chuva foi minha aliada
O temporal me prendeu, e a mesa foi arrumada
Em trinta e quatro, o alfajor foi a minha entrada
Fui ficando pro jantar... e a rotina foi cravada
[Chorus]
(Melancholic and longing)
Por que eu volto todo ano? O que me faz suportar?
São "aniversários melancólicos", pro meu peito acalmar
É um "erotismo inútil", que eu insisto em cultivar
Vendo as fotos da Beatriz, espalhadas no lugar
Eu suporto qualquer coisa... só pra ela eu relembrar
[Bridge]
(Tempo stays steady, tone becomes sharper/critical)
Mas o preço que eu pago é ouvir o primo falar...
[Verse 3]
(Voice conveys annoyance/disdain)
Carlos Argentino Daneri, com seu jeito de gesticular
Rosado, robusto e grisalho, com um "esse" a sibilar
Trabalha na biblioteca, mas não tem o que ensinar
É autoritário e inútil, gosta de se amostrar
Sua mente não para nunca... mas não sai do lugar!
[Verse 4]
(Emphasizing the insults)
Eu analiso esse homem, com frieza e atenção
A atividade mental dele é pura agitação
Apaixonada, versátil... mas sem direção!
É "completamente insignificante", é essa a conclusão
Ele faz analogias que não têm pé nem mão
E eu balanço a cabeça, escondendo a irritação
[Outro]
Levo conhaque e presente, engulo a indignação
O Carlos é o meu castigo...
E a Beatriz... a minha devoção.
(Fade out with a final strum)
Notas do compositor
No conto de Borges, o narrador frequenta por anos a casa da Rua Garay onde Beatriz Viterbo viveu — e viveu, e morreu. Vai todo trinta de abril, aniversário dela, pontualmente às sete e quinze da noite, sempre com presente. O ritual começa como homenagem e vira vício, depois devoção, depois uma estranha forma de posse do que não pode ser possuído. Essa progressão me interessa porque não é patológica no sentido clínico; é completamente racional dado o pressuposto — se você não consegue soltar, pelo menos apareça. O preço que o título nomeia é ouvir Carlos Argentino Daneri discursar durante horas para ter acesso a vinte minutos de olhar as fotos dela na parede. É um pedágio estético.
Escolhi a moda de viola com cururu porque queria ritmo de trabalho pesado — algo que soa como obrigação cumprida, conta paga. A progressão das datas no Verso 1 (vinte e nove, trinta e três, trinta e quatro) funciona como contabilidade sentimental: cada ano tem seu evento, sua justificativa, seu alfajor de Santa Fé. O Suno capturou bem o peso melancólico que pedi; a viola caipira em drop-D cria uma textura que soa simultaneamente firme e cansada, que é exatamente o estado do narrador.
O retrato de Carlos Argentino é o momento mais cruel da faixa — e da série inteira. Borges o descreve como “rosado, gordo e grisalho” com “um sibilado esse”, trabalhando numa biblioteca em cargo menor, produzindo poesia que não vai a lugar nenhum com energia intelectual sem direção. O narrador observa isso com frieza clínica: “atividade mental contínua, apaixonada, versátil e sem nenhuma consequência.” Não é simples desprezo — é o diagnóstico de alguém que reconhece no outro um tipo de falha que teme em si mesmo. A faixa nunca chega a resolver essa tensão. Termina com a admissão de que Carlos é o custo de entrada — que é uma conclusão perfeitamente borgiana: o absurdo como estrutura estável de vida.
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