Trinta de Abril

· 3 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #30/97

Capa de Trinta de Abril

moda de violasertanejo

3:10

Ouvir no Suno ↗

Letra

[Lyrics]
[Intro]
(Viola Caipira dedilhada - Solene e marcada)
(Bass notes emphasizing the rhythm)

[Verse 1]
Firmei o meu pensamento, fiz uma resolução
Se o mundo esquece depressa, eu vou na contramão
Não vou deixar a Beatriz sumir na escuridão
Vou me consagrar à ela, com a minha devoção
Enquanto eu tiver vida e bater meu coração

[Interlude]
(Short Viola solo)

[Verse 2]
Marquei no meu calendário, uma data pra guardar
Dia trinta de abril, eu não posso faltar
É dia do aniversário, eu vou lá visitar
A casa da Rua Garay, onde ela ia morar
Com a desculpa de amigo, pro pai dela eu abraçar

[Chorus]
(Stronger, emotional vocals)
Eu chego de terno escuro, com um presente na mão
Suporto o primo Carlos, com a sua falação
Ele lê os seus poemas, cheios de pretensão
Eu balanço a cabeça, finjo prestar atenção
Só pra estar perto das coisas... da minha antiga paixão

[Bridge]
(Slow down - Declamado/Spoken)
"Eu sabia que pra manter a memória dela viva...
Eu teria que suportar aquele jantar, ano após ano.
Era o meu sacrifício."

[Verse 3]
Eu entro naquele sobrado e sinto o tempo parar
Vejo os retratos na sala, o jeito dela olhar
Em cada canto que eu olho, ela parece estar
Eu pago esse preço alto, de ter que suportar
O jantar com a família, só pra poder lembrar

[Outro]
Todo trinta de abril, o meu destino é assim...
Cultivando uma saudade que não vai ter mais fim.
Eu abraço o meu castigo...
Pra ter ela perto de mim.
(Fade out with Viola ending on a minor chord)

Notas do compositor

Sempre me perguntei o que se passa na cabeça do personagem secundário de uma história de amor. Não o amante frustrado dos grandes romances — não Werther, não Emma Bovary — mas o tipo que aparece num conto menor, que cultiva uma devoção tão quieta que quase passa por normalidade. Esse personagem sem nome em “Trinta de Abril” faz seu sacrifício anual com uma metodologia: terno escuro, presente na mão, disposição para suportar o primo Carlos e seus poemas cheios de pretensão. A dedicação é real. O objeto da dedicação sumiu. O ritual sobreviveu a ambos.

A moda de viola não foi uma escolha irônica — foi a única forma que faria justiça a isso. O ritmo de cururu tem uma cadência que é ela mesma uma forma de insistência, o compasso que volta porque foi embora e precisa voltar. Há algo no gênero que sabe de devoções compridas. Pedi ao Suno um arranjo solene sem ser pesado, e ele entendeu: a viola dedilhada do intro não chora nem celebra — apenas marca o tempo, que é o que a data do título faz. Trinta de abril como coordenada de retorno. Uma data que é uma prática.

O spoken word do bridge é a linha que ancora tudo: “Eu sabia que pra manter a memória dela viva… / Eu teria que suportar aquele jantar, ano após ano. / Era o meu sacrifício.” Essa frase tem uma lógica que Borges reconheceria — a memória como custo, a saudade como contrato com o passado que precisa ser renovado. O personagem não está triste da maneira convencional. Está comprometido. E o compromisso é com algo que talvez só exista no ato de renová-lo, toda vez, no trinta de abril.

Tags: #música

Read in English

Comentários

Comentários ainda não configurados.

↑ Top