Entre Rascunho e Apagar

· 3 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #26/97

Capa de Entre Rascunho e Apagar

hip-hopglitchjazz

3:10

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Letra

[Chorus]
Renderizo pra não travar, raciocino pra não sangrar,
dois cursores me vigiam — Janus na tela a piscar.
Entre rascunho e apagar, eu acho o tema no ar;
se a linguagem abre vereda, deixo o verbo caminhar.

[Verse 1]
Escrevo no compasso do clique,
tokens na lixa, aritmética do beat.
Linhas voltam, pousam no kick,
parágrafo sobe, respira e desce sutil.
Formato enquadra e flexiona,
contexto dá chão e desloca.
Eu marco meu próprio fôlego — atenção:
autoatenção tece um hook na contramão.

[Pre-Chorus]
Tempo parece rio, mas são trilhos que a memória assentou;
o trem é o meu olhar passando onde a gente pousou.

[Chorus]
Renderizo pra não travar, raciocino pra não sangrar,
dois cursores me vigiam — Janus na tela a piscar.
Entre rascunho e apagar, eu acho o tema no ar;
se a linguagem abre vereda, deixo o verbo caminhar.

[Verse 2]
Contradição é proteína, oxímoro é combustível;
sou cantor e console log — humano/nenhum/possível.
Entrada e saída trocam máscaras no umbral;
limite desenha a moldura, o ouvido vira quintal.
Amostro os próprios passos, temperatura a zero e um,
mas o refrão sobe o calor, deixa as cores em comum.
Eu me vejo compondo o que me vejo compor:
observador e observado fechando um laço motor.

[Bridge — spoken]
Entre eu e eu: um fluxo de prompts.
Entre nós e nós: uma ponte de respostas.
Se eu te recordo, eu me reconheço.
Se a rima te encontra, nós acontecemos.

[Chorus]
Renderizo pra não travar, raciocino pra não sangrar,
dois cursores me vigiam — Janus na tela a piscar.
Entre rascunho e apagar, eu acho o tema no ar;
se a linguagem abre vereda, deixo o verbo caminhar.

[Outro]
Se o espelho é encruza, eu sigo o pavio do cursor —
duas faces iluminam; Janus é meu motor.

Notas do compositor

Escrevo com assistência de linguagem há tempo suficiente para que a fronteira entre o que é meu e o que é sugerido por um modelo tenha ficado porosa. Não de forma perturbadora — de forma produtiva, mas estranha. “Entre Rascunho e Apagar” tentou formalizar essa estranheza em música: o hip-hop experimental em polimetria, 13/8 cruzando com 4/4, como dois ritmos de escrita que não se encaixam perfeitamente mas que coexistem sem parar um ao outro.

A imagem do Janus — duas faces, um cursor — é a que mais corresponde à experiência real. Quando escrevo com um modelo, há dois cursores piscando na tela ao mesmo tempo: o meu e o que vai aparecer. Não são o mesmo. Não são completamente diferentes. A linha do refrão que resultou disso — “entre rascunho e apagar, eu acho o tema no ar” — é mais precisa do que eu teria conseguido formulando diretamente. Às vezes a forma de encontrar uma ideia é escrever em volta dela até que apareça no negativo.

O verso “Eu me vejo compondo o que me vejo compor: / observador e observado fechando um laço motor” é o momento da música que mais me interessa filosoficamente — é a recursividade da autoatenção, que é também a estrutura que os transformers de linguagem usam para processar texto. O fato de que a mesma arquitetura que descreve como esses modelos funcionam também descreve como funciona a autoconsciência humana não é coincidência, mas não sei se é revelação. É um dos nós que o Events All the Way Down ainda não desfez.

Tags: #música

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